Publicado em 25 de julho de 2026 por Tribuna da Internet

Legendas evitam compromisso com o senador
Marcelo Copelli
Revista Fórum
A indicação de Flávio Bolsonaro para disputar a Presidência não resultou na formação de uma frente partidária capaz de sustentá-lo. As principais legendas que poderiam ampliar seu espaço político preferem preservar suas alternativas e não assumem compromisso nacional com o senador.
O dado concreto é que a definição do nome não se converteu em adesão partidária. União Brasil e Progressistas, reunidos na federação União Progressista, optam pela neutralidade na disputa presidencial, enquanto mantêm negociações e alianças nos estados. O Republicanos também evita, por enquanto, uma definição sobre a corrida presidencial. As legendas não precisam declarar oposição para sinalizar que não pretendem aderir ao projeto. A decisão de não avançar já é reveladora.
ATRAÇÃO DE FORÇAS – Para Flávio, essa falta de respaldo representa mais do que um problema de montagem de chapa. Expõe a dificuldade de transformar uma candidatura anunciada pelo principal líder de seu campo político em um polo capaz de atrair outras forças. Uma disputa presidencial depende de partidos, estruturas regionais e articulações. Quando as siglas que poderiam ampliar esse campo preferem esperar, o candidato permanece confinado ao grupo que já o apoia.
A diferença de interesses ajuda a explicar o movimento. Flávio tenta consolidar sua candidatura em 2026. Os partidos, por sua vez, preservam sua força para negociar com o próximo governo e manter influência nos estados. Enquanto o senador depende de definições antecipadas, as legendas podem aguardar o amadurecimento do cenário eleitoral.
Essa assimetria expõe uma fragilidade que vai além da falta de alianças. Flávio não conseguiu, até aqui, fazer com que sua candidatura se tornasse uma escolha natural para as legendas que poderiam acompanhá-lo. Jair Bolsonaro pode apontar um nome, mas não controla as decisões de partidos com interesses próprios, bancadas e projetos independentes.
PROPAGANDA NO RÁDIO E TV – A consequência aparece também na estrutura eleitoral. Se permanecer apenas com o PL, Flávio poderá ter cerca de 20% menos tempo de propaganda no rádio e na televisão do que Lula. O número traduz em termos concretos o custo da dificuldade de ampliar sua coalizão.
O mesmo problema aparece na composição da chapa. Tereza Cristina recusou a possibilidade de ser vice, enquanto uma eventual alternativa ligada ao Republicanos depende de uma legenda que ainda não assumiu compromisso nacional com o senador. A questão, portanto, não está apenas em encontrar um nome para completar a chapa, mas em encontrar quem esteja disposto a dividir com ele o risco político da candidatura.
É nesse ponto que o desgaste de Flávio se torna mais evidente. O senador dispõe de um sobrenome de peso eleitoral e de uma base bolsonarista fiel, mas esses ativos não foram suficientes para produzir uma articulação política mais ampla. O que está em dúvida não é apenas quem estará ao seu lado, mas a capacidade de sua candidatura de atrair quem ainda não está.
DEPENDÊNCIA – A comparação com a trajetória do pai ajuda a dimensionar o problema. Jair Bolsonaro conseguiu, em diferentes momentos, aproximar setores distintos e estabelecer relações com partidos que não pertenciam originalmente ao núcleo ideológico do bolsonarismo. Flávio, até aqui, permanece mais dependente da identidade política construída pelo pai do que de uma liderança própria capaz de ampliar seu campo de interlocução.
A recente retomada da narrativa falsa sobre as urnas eletrônicas reforçou essa dificuldade. Em encontro com diplomatas, Flávio voltou a associar o sistema brasileiro à empresa venezuelana Smartmatic, afirmação já desmentida pela Justiça Eleitoral. Integrantes do Centrão avaliaram a fala como prejudicial à tentativa de construir uma imagem mais moderada do senador.
O episódio expõe uma contradição central. Para preservar o eleitorado mais fiel, Flávio permanece vinculado ao repertório tradicional do bolsonarismo. Mas essa mesma identificação dificulta sua aproximação com setores políticos que estão fora desse núcleo e que poderiam ampliar seu campo de apoio.
CONCILIAÇÃO – A crise com Michelle Bolsonaro acrescentou outro desgaste. Flávio publicou um vídeo pedindo desculpas e solicitando sua ajuda na campanha, e Michelle respondeu de forma conciliatória. A trégua reduziu a tensão pública, mas não resolveu a questão de fundo.
Enquanto enfrenta dificuldades para reunir partidos, o senador também precisou administrar uma crise dentro do próprio grupo familiar que sustenta sua candidatura. Por isso, o isolamento de Flávio não deve ser medido apenas pelas legendas que formalmente se afastaram. Ele aparece, sobretudo, na postura daqueles que poderiam se aproximar e preferem não fazê-lo.
União Brasil, Progressistas e Republicanos não precisam rejeitar o senador. Basta não assumir compromisso. Para essas legendas, a cautela preserva liberdade de negociação. Para Flávio, o efeito é outro: sua candidatura permanece circunscrita ao núcleo que já lhe é fiel e não demonstra capacidade de atrair forças políticas além dele.
LIMITE – O sobrenome que lhe garante visibilidade também evidencia o limite de sua liderança. A base eleitoral pode ser parcialmente herdada, mas a capacidade de negociação, as relações políticas e a autoridade para reunir diferentes interesses precisam ser construídas pelo próprio candidato. É justamente essa construção que parece não ter avançado. A candidatura possui um ponto de partida definido, mas não conseguiu, até aqui, produzir uma rede de alianças proporcional ao desafio que pretende enfrentar.
O isolamento, portanto, não está na ausência absoluta de apoio. Está no fato de que os partidos que poderiam ampliar seu espaço político não demonstram disposição para assumir o custo de acompanhá-lo.
Flávio tem uma candidatura, mas não conseguiu transformá-la em liderança política própria. Sem partidos dispostos a apostar antecipadamente em seu projeto, sem uma coalizão capaz de ampliar seu alcance e ainda fortemente dependente da identidade construída pelo bolsonarismo, o senador chega a este momento da disputa sem demonstrar capacidade de ocupar um espaço que vá além daquele que já lhe foi entregue.
CONDICIONAMENTO – Esse é o problema que ultrapassa a eleição de 2026. Se Flávio não conseguir construir uma força política própria, sua trajetória continuará condicionada ao tamanho e à sobrevivência do capital político que recebeu. Poderá permanecer como herdeiro de um movimento, mas não necessariamente se tornar seu líder. A diferença é decisiva.
A política partidária não se move apenas por lealdade ou por sucessão. Move-se pela expectativa de poder. Quando as principais legendas preferem manter suas opções abertas em vez de comprometer-se com determinado nome, o sinal político é claro: aquele candidato ainda não se consolidou como uma força capaz de organizar, em torno de si, os interesses que disputam o futuro do campo que pretende representar.
CONVERSÃO – É esse espaço que Flávio não conseguiu ocupar. O pai lhe transferiu um eleitorado, um sobrenome e uma posição privilegiada dentro do bolsonarismo. O que permanece sem demonstração é a capacidade de converter esse patrimônio em autoridade política própria.
O isolamento partidário é apenas a manifestação mais visível de um problema maior. Flávio pode ter recebido o lugar de candidato, mas não será capaz de conquistar o lugar de liderança. E, sem essa transformação, seu futuro político continuará dependente de uma força que não construiu e de um legado que, por definição, pertence a outro.