segunda-feira, julho 20, 2026

Decisivo na eleição, voto feminino está no centro da disputa bolsonarista


Michelle ajudava o bolsonarismo a dialogar com eleitoras

Pedro do Coutto

A eleição de 2026 começa a revelar uma disputa que vai muito além da corrida presidencial. Dentro do próprio campo bolsonarista, o eleitorado feminino passou a ocupar uma posição estratégica, especialmente diante da distância que ainda separa Flávio Bolsonaro de Lula entre as mulheres. Nesse cenário, a movimentação política de Michelle Bolsonaro e a presença crescente de Fernanda Bolsonaro, mulher do senador, podem transformar a campanha em uma espécie de batalha silenciosa pela representação feminina da direita.

Michelle, que durante anos foi um dos principais ativos eleitorais do bolsonarismo, continua sendo pressionada por aliados a disputar uma vaga no Senado pelo Distrito Federal. A governadora Celina Leão voltou a defender publicamente sua candidatura e afirmou, neste fim de semana, que ainda tenta convencê-la a entrar na disputa. A assessoria da ex-primeira-dama, por sua vez, já negou que ela tenha desistido do projeto eleitoral.

PROTAGONISMO – A questão ganhou outra dimensão porque Michelle se tornou uma personagem central da crise interna que atingiu a família Bolsonaro. O rompimento político com Flávio, marcado por críticas públicas e pela saída da presidência do PL Mulher, retirou da campanha presidencial uma das figuras que mais ajudavam o bolsonarismo a dialogar com eleitoras, especialmente nos segmentos conservador e evangélico. A crise expôs justamente uma dificuldade histórica da direita brasileira: ampliar sua capacidade de comunicação com o eleitorado feminino.

É nesse espaço que a presença de Fernanda Bolsonaro ganha importância. A mulher de Flávio passou a aparecer mais na cena política e eleitoral justamente quando Michelle se afastou do núcleo da campanha. A movimentação não significa necessariamente que Fernanda possa substituir a ex-primeira-dama — são personagens com trajetórias, públicos e capital político diferentes —, mas revela uma tentativa de preencher uma lacuna que se tornou evidente.

O problema é que o eleitorado feminino não funciona como um bloco homogêneo, tampouco pode ser simplesmente transferido de uma liderança para outra. Michelle construiu uma identidade política própria, sobretudo entre mulheres evangélicas e conservadoras, e sua influência não se confunde automaticamente com a candidatura de Flávio.

DIFERENÇAS – A pesquisa Genial/Quaest citada pela Folha mostrou uma diferença expressiva entre os sexos: no cenário de primeiro turno divulgado em junho, Lula aparecia com 41% entre as mulheres, enquanto Flávio registrava 24%. No eleitorado geral, os números eram de 39% e 29%, respectivamente.

A matemática eleitoral ajuda a explicar a tensão. Se a campanha de Flávio precisa avançar entre as mulheres, a ausência de Michelle representa uma perda potencial de interlocução. Não por acaso, o senador declarou recentemente que não mantém relação com a ex-primeira-dama e afirmou que não pretende pressioná-la a apoiar sua candidatura. A declaração expõe uma realidade política difícil de esconder: a campanha presidencial do bolsonarismo terá de lidar com a possibilidade concreta de seguir sem uma de suas principais figuras de comunicação com o eleitorado feminino.

Há, portanto, uma contradição no centro da estratégia. De um lado, Michelle pode fortalecer sua própria trajetória política ao disputar o Senado pelo Distrito Federal e consolidar uma posição independente dentro do campo conservador. De outro, sua eventual candidatura pode acentuar a fragmentação de um eleitorado que o grupo de Flávio precisa conquistar. A disputa deixa de ser apenas familiar ou interna ao bolsonarismo e passa a ter consequências eleitorais.

CAPITAL POLÍTICO – A tentativa de ampliar a presença feminina na campanha, portanto, não deve ser confundida com uma simples substituição de nomes. Fernanda pode ganhar espaço, mas Michelle possui um capital político acumulado que não se transfere por herança familiar. A questão decisiva será saber se a direita conseguirá apresentar uma narrativa capaz de reunir essas diferentes figuras ou se a disputa entre elas acabará aprofundando a divisão de um eleitorado estratégico.

O próprio cenário nacional mostra o tamanho do desafio. Pesquisa Quaest divulgada em julho apontou Lula à frente de Flávio na corrida presidencial, enquanto levantamentos anteriores já indicavam dificuldades maiores do senador entre as mulheres.

DIVISÃO – No fim, a eleição poderá produzir uma resposta para uma pergunta que hoje permanece em aberto: o voto feminino conservador seguirá orbitando uma liderança central ou começará a se dividir entre diferentes nomes e projetos dentro da própria direita?

A resposta terá impacto não apenas sobre a disputa pelo Senado no Distrito Federal, mas também sobre a capacidade de Flávio Bolsonaro de construir uma candidatura presidencial competitiva. Porque, em uma eleição tão polarizada, conquistar o eleitorado feminino não será apenas uma questão de imagem. Será uma questão de sobrevivência eleitoral.