quinta-feira, abril 23, 2026

Entre guerras, delações e eleições: o tabuleiro instável que redefine poder no Brasil e no mundo


Lula tem buscado explorar o contraste com Trump

Pedro do Coutto

Poucas horas antes da entrada em vigor de uma trégua entre Estados Unidos e Irã, o presidente Donald Trump fez o que tem sido uma marca recorrente de sua política externa: lançou dúvidas sobre a própria estabilidade do acordo que anunciava. Ao sinalizar que o cessar-fogo poderia durar “por tempo indeterminado”, mas manter o bloqueio naval em um ponto sensível como o Estreito de Ormuz, Trump produziu mais do que uma ambiguidade — expôs uma estratégia.

Essa lógica, já observada por analistas, segue um padrão: negociar sob pressão máxima, manter instrumentos de coerção ativos e transferir ao adversário o custo político de qualquer ruptura. O problema é que esse tipo de condução amplia a imprevisibilidade global e, sobretudo, tensiona a opinião pública doméstica.

DESGASTE – Nos Estados Unidos, pesquisas recentes indicam desgaste na popularidade de Trump em seu segundo mandato, especialmente quando o tema é política externa e risco de novos conflitos.

A memória histórica pesa. A evocação da Guerra do Vietnã não é retórica vazia: ela reflete o temor profundo de uma sociedade que já pagou alto preço humano e político por intervenções prolongadas. Famílias americanas, hoje, mostram menor disposição para apoiar aventuras militares no Oriente Médio, sobretudo diante de um cenário econômico ainda pressionado por inflação e custos energéticos.

Do outro lado, a retórica também escala. Órgãos ligados à Guarda Revolucionária Iraniana rejeitam a narrativa de concessão e chegam a declarar vitória simbólica sobre Washington. Esse jogo de versões — típico de conflitos assimétricos — reforça a dificuldade de consolidar qualquer trégua duradoura. A diplomacia, nesse contexto, fica espremida entre discursos nacionalistas e cálculos estratégicos de curto prazo.

REFLEXOS – Mas os reflexos desse tabuleiro não param nas fronteiras do Oriente Médio. No Brasil, o cenário político começa a absorver — e instrumentalizar — essa tensão internacional. O presidente Lula da Silva tem buscado explorar o contraste com Trump, apostando em um discurso de soberania e estabilidade. Já no campo da oposição, nomes como Flávio Bolsonaro surgem como contraponto, alimentando uma polarização que, longe de arrefecer, se reinventa.

Nesse ambiente, figuras que tentam ocupar uma “terceira via” enfrentam o desafio clássico da política brasileira: existir entre dois polos altamente mobilizados. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ensaia críticas à polarização enquanto mantém um pé no eleitorado conservador. Já o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, se posiciona de forma mais direta, admitindo disputar espaço com Bolsonaro para chegar ao segundo turno contra Lula.

CONTORNOS DELICADOS – Se a disputa eleitoral já seria complexa por si só, ela ganha contornos ainda mais delicados com a sobreposição de crises institucionais e econômicas. O caso envolvendo o Banco Regional de Brasília e o Banco Master é um exemplo claro. A possibilidade de criação de mecanismos públicos para absorver ativos de baixa qualidade levanta questionamentos clássicos sobre risco moral, uso de recursos públicos e a fronteira entre socorro financeiro e favorecimento indevido.

O episódio ecoa padrões já estudados por organismos como o FMI e o Banco Mundial em crises bancárias: quando instituições públicas assumem prejuízos privados, a conta raramente é neutra — ela se traduz em perda de confiança e desgaste político. E, no Brasil, onde escândalos financeiros frequentemente se entrelaçam com disputas de poder, o impacto tende a ser ainda maior.

CONVERGÊNCIA – O que se desenha, portanto, é um cenário de convergência de crises. No plano internacional, uma trégua frágil entre potências com interesses conflitantes. No plano doméstico, uma eleição antecipadamente tensionada, marcada por polarização, ambições alternativas e novos focos de desgaste institucional.

No centro de tudo, permanece uma constante: a política como gestão de incertezas. Trump joga com a imprevisibilidade como instrumento de poder. No Brasil, lideranças tentam traduzir esse caos externo em capital político interno. Resta saber até que ponto o eleitor — no Brasil e nos Estados Unidos — continuará disposto a aceitar esse nível de instabilidade como parte do jogo. A resposta a essa pergunta pode definir não apenas eleições, mas o próprio rumo das democracias nos próximos anos.