Se Neto também migrar, Otto perde controle do PSD na Bahia, por Raul Monteiro*
Por Raul Monteiro*
05/02/2026 às 06:30
Atualizado em 05/02/2026 às 09:31
Foto: Saulo Cruz/Arquivo/Agência Senado
Otto Alencar
O senador Otto Alencar ajudou a rifar o colega Angelo Coronel (PSD) da chapa de Jerônimo Rodrigues (PT), a partir do momento que emplacou um filho no Tribunal de Contas do Estado, e depois quando colaborou para praticamente expulsá-lo do grupo governista, demonstrando de público exercer pleno domínio sobre o PSD na Bahia. Neste sentido, prestou um serviço inestimável ao governo e, em especial ao senador Jaques Wagner (PT), que há tempos desejavam se livrar de Coronel, a quem chamavam nos bastidores de 'infiel e desleal', mas, por óbvio, não queriam sujar diretamente as mãos com a operação.
Otto não está, entretanto, livre de sofrer um revés pelas mãos do presidente nacional da legenda, Gilberto Kassab, considerado nos meios políticos um verdadeiro 'mágico', capaz de dar nó em pingo de éter. Kassab é o responsável pela transformação do PSD, nas palavras de Hélio Schwartsman, numa 'Pasárgada partidária', em que todos podem ser felizes, não importa a ideologia que abracem, desde que não atentem contra seus interesses. A ausência de salvaguardas com relação ao que pode acontecer com o PSD na Bahia talvez esteja na base do nervosismo que se sente em setores do governo desde que Coronel anunciou a decisão de sair da base governista.
Era para ser uma festa, com comemoração por todos os lados. Afinal, com a mudança de lado, Coronel abriu espaço para a consolidação da chamada chapa 'puro-sangue', pondo fim ao conflito criado com a decisão do senador Jaques Wagner de disputar a reeleição ao lado de Jerônimo e do ministro Rui Costa (Casa Civil), um arranjo partidariamente abusivo que leva o PT a ocupar simplesmente três das quatro vagas em jogo na sucessão estadual para atender ao desejo de um dos seus líderes. Mas não é o que se vê. O governador e o ministro ainda não dão a saída de Coronel como fato consumado, passando a impressão de que não estão seguros.
Faltando cinco meses para as convenções partidárias que oficializarão alianças e candidaturas, há convicção de que muita água ainda pode rolar por debaixo da ponte e que ninguém, no país em que a insegurança predomina em todos os níveis e esferas, pode estar convicto de que está tranquilo. A situação se aplica como uma luva a Otto, que pelo serviço prestado de limar Coronel, pode até ser destinatário hoje de uma gratidão do governo que embale projetos futuros - já se fala no desejo de colocar o filho Daniel como candidato ao governo em 2030 - mas não tem, na prática, o mínimo controle sobre um partido que acaba de ganhar o terceiro candidato presidencial.
Qual a garantia pode obter de Kassab, por exemplo, de que conseguirá manter o partido apoiando Jerônimo e Lula na Bahia, caso um dos três nomes disponíveis hoje no partido venha a despontar e ganhar musculatura para a sucessão presidencial? Fora de cogitação que o presidente nacional do PSD possa submeter um projeto de fortalecimento e vitória nacional a sua camaradagem com Otto. Outro porém: E se o líder das oposições na Bahia, ACM Neto (União Brasil), depois de avaliar prós e contras, decidir seguir Caiado e se filiar ao PSD, transformando-se no candidato a governador do partido no Estado? As pedras só começaram a rolar...
* Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.
Nota da Redação Deste Blog - Se Neto também migrar, Otto perde o controle do PSD na Bahia?
Uma análise sobre poder, prefeitos e a força da máquina estadual
Por José Montalvão
A possibilidade de uma migração de lideranças estratégicas dentro do PSD baiano, como ventilado no cenário político, reacende uma discussão inevitável: até que ponto o senador Otto Alencar manteria o controle do partido na Bahia? E, caso perca o comando formal da legenda, isso significaria perda real de influência sobre os prefeitos e sobre o eleitorado do interior?
No meu singelo entender, Otto pode até enfrentar dificuldades internas na condução do PSD, sobretudo se nomes de peso decidirem mudar de rumo político. Contudo, uma coisa é o controle formal da sigla; outra, bem diferente, é o controle político sobre as bases municipais.
Prefeitos e governadores: uma aliança histórica
A relação entre prefeitos do interior e governadores no Brasil sempre foi marcada por uma lógica pragmática: a necessidade de recursos. Municípios, especialmente os de pequeno e médio porte, dependem fortemente de repasses estaduais e federais para manter serviços básicos como saúde, educação, infraestrutura e assistência social.
O governador, ao controlar o orçamento estadual e influenciar a distribuição de convênios e emendas, torna-se peça-chave para a sobrevivência administrativa dos prefeitos. Essa dependência cria uma aliança que vai além da ideologia partidária: trata-se de uma relação de sobrevivência política e financeira.
A força da “máquina” eleitoral
Não se pode ignorar que a engrenagem prefeitura-governo funciona como uma verdadeira máquina política. Em anos eleitorais, a intensificação de convênios, obras e investimentos fortalece alianças e consolida palanques. O prefeito que mantém boa relação com o governo estadual tende a receber mais atenção, mais obras e, consequentemente, melhores condições para sustentar sua base eleitoral.
Levantamentos em diversos estados mostram que a maioria dos convênios e transferências voluntárias costuma beneficiar prefeitos aliados ao governador. Esse dado ajuda a explicar por que raramente gestores municipais rompem com o chefe do Executivo estadual — especialmente quando há risco de isolamento político e financeiro.
Partido não transfere voto automaticamente
Mesmo que haja mudança no comando do PSD, isso não significa que prefeitos migrariam automaticamente ou que votos seriam transferidos em bloco. No interior, a fidelidade política é construída muito mais na relação pessoal, na confiança e na reciprocidade de apoio do que na mera sigla partidária.
Prefeitos não “pertencem” a partidos; pertencem a arranjos políticos locais. Se o senador Otto mantiver diálogo, apoio institucional e capacidade de articulação, sua influência pode permanecer viva, ainda que o controle formal da legenda seja disputado.
Dinheiro, poder e riscos
Entretanto, é preciso reconhecer que esse modelo de dependência também carrega riscos. Investigações da Polícia Federal em diversos estados, inclusive na Bahia e no Maranhão, já revelaram esquemas envolvendo desvios de recursos de emendas e fraudes em licitações. Quando a relação entre prefeito e governador se baseia exclusivamente em troca de favores e vantagens, abre-se espaço para distorções e corrupção.
A transparência e o fortalecimento dos mecanismos de controle são fundamentais para evitar que a legítima cooperação institucional se transforme em conluio político-administrativo.
O desafio da independência municipal
No fundo, o grande dilema dos municípios é a baixa autonomia financeira. A maioria depende quase exclusivamente do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e de repasses estaduais. Enquanto não houver reforma que fortaleça a arrecadação própria e amplie a autonomia fiscal das cidades, prefeitos continuarão presos à lógica da dependência.
Por isso, ainda que o PSD passe por mudanças internas, é pouco provável que prefeitos abandonem alianças consolidadas apenas por rearranjos partidários. A política real se move pela necessidade concreta de governar.
Conclusão
Se Neto migrar e o PSD sofrer abalos internos, Otto pode até enfrentar turbulências na condução partidária. Contudo, perder o controle da sigla não significa, necessariamente, perder o controle político das bases.
Na Bahia — como no restante do Brasil — quem controla a caneta e os cofres tem vantagem estratégica. E prefeitos, antes de tudo, precisam garantir obras, recursos e governabilidade.
Partidos mudam. Lideranças se reorganizam. Mas a lógica da dependência financeira e da máquina administrativa continua sendo a engrenagem silenciosa que move a política do interior.
* José Montalvão - Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, pós-graduação em Jornalismo proprietário do Blog DedeMontalvão, matrícula ABI C-002025