sábado, fevereiro 28, 2026

Na guerra fria na família Bolsonaro, a disputa pelo espólio do poder


Bolsonarismo entra em fase aberta de autodevoração política

Marcelo Copelli
Revista Fórum

A candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, apresentada como herança direta de Jair Bolsonaro, está longe de constituir consenso no próprio clã e muito menos no campo conservador que orbitou o ex-presidente desde 2018. O que se projeta para 2026 não é uma transição orgânica de liderança, mas um movimento defensivo para preservar um capital político em evidente perda de capacidade agregadora. A tentativa de naturalizar a sucessão esbarra numa realidade incômoda: sem o vértice indiscutível que antes organizava o grupo, tensões acumuladas emergem e transformam a pré-candidatura em foco explícito de disputa doméstica.

Não se trata de continuidade, mas de administração de espólio. O bolsonarismo, frequentemente descrito como bloco monolítico, sempre operou como coalizão pragmática de interesses heterogêneos — militares, liberais radicais, lideranças evangélicas, antipetistas históricos e operadores do Centrão — unificados menos por um programa consistente do que pela força agregadora de uma liderança personalista. Enquanto esse poder arbitral se mantinha intacto, divergências eram contidas. Com a inelegibilidade e o afastamento do jogo eleitoral direto, porém, a engrenagem perdeu o eixo e as fissuras deixaram de ser silenciosas.

APOSTA ARRISCADA – A escolha de Flávio, nesse cenário, não surge como solução consensual, mas como aposta arriscada numa lógica dinástica que parcela relevante da própria direita considera politicamente contraproducente. A contradição é direta: o movimento que se construiu como antítese das “velhas oligarquias” passa a flertar com a reprodução hereditária de poder. A promessa de ruptura converte-se, assim, em continuidade familiar — e essa inversão simbólica é percebida com crescente desconforto por aliados estratégicos.

Entre os primeiros sinais de tensão, destacam-se críticas oriundas do próprio campo ideológico. O pastor Silas Malafaia, figura central na mobilização do eleitorado evangélico, já indicou preferência por alternativas consideradas mais competitivas e chegou a avaliar que intervenções públicas de Eduardo Bolsonaro prejudicam mais do que contribuem para a viabilidade eleitoral do irmão. A mensagem implícita é inequívoca: lealdade ao fundador não implica adesão automática ao herdeiro designado.

A equação torna-se mais complexa com o fortalecimento do capital político próprio de Michelle Bolsonaro. Consolidada como liderança com linguagem mais moderada e forte apelo entre mulheres e evangélicos, ela deixou de ser mera extensão simbólica do ex-presidente para tornar-se alternativa real dentro do campo conservador. Seu apoio público ao nome de Flávio, nesse contexto, soa menos como aclamação espontânea e mais como gesto de disciplina familiar diante de um processo sucessório ainda indefinido.

REORGANIZAÇÃO – A disputa alcança também a nova geração da direita. O protagonismo digital e eleitoral de Nikolas Ferreira evidencia que o conservadorismo brasileiro já não gravita exclusivamente em torno da família Bolsonaro, mas se reorganiza como ecossistema competitivo de lideranças que disputam legitimidade junto à base ideológica. Nesse ambiente, a candidatura do herdeiro não produz unidade automática; torna-se apenas mais um polo na corrida por hegemonia no campo conservador.

As fricções estendem-se à estrutura partidária. Divergências entre Carlos Bolsonaro e o comando do Partido Liberal (PL), liderado por Valdemar Costa Neto, revelam um conflito estratégico nítido: enquanto o partido busca ampliar alianças e dialogar com setores moderados, o núcleo ideológico insiste numa linha permanente de confronto. O dilema é estrutural — moderar-se para ampliar viabilidade ou radicalizar para preservar identidade mobilizadora.

Esse ambiente de disputa doméstica produz um efeito decisivo: a cautela pragmática do Centrão. Diferentemente do bolsonarismo ideológico, esse bloco opera por cálculo frio de viabilidade eleitoral e governabilidade futura. Nesse horizonte, a candidatura de Flávio surge como ativo incerto: carrega o peso do sobrenome, mas carece de experiência executiva robusta e enfrenta resistências no próprio campo que deveria sustentá-lo. Para atores pragmáticos, herança familiar não substitui densidade política nem probabilidade concreta de vitória.

COMPETIÇÃO DOMÉSTICA – O próprio clã, por anos apresentado como núcleo indissociável, revela agora dinâmica competitiva doméstica. A política familiar, antes extensão direta do projeto presidencial, converte-se em arena de protagonismos paralelos. Cada integrante busca preservar ou ampliar espaço, e a escolha de um sucessor prioritário altera inevitavelmente esse equilíbrio. Divergências públicas, recados indiretos e movimentos autônomos indicam que a lealdade convive, de forma cada vez mais evidente, com rivalidades latentes.

No plano eleitoral, a fragilidade torna-se ainda mais visível. Sem trajetória executiva de grande porte, Flávio enfrenta o contraste com governadores conservadores que acumulam resultados administrativos concretos e ambições presidenciais próprias. Instala-se, então, um dilema silencioso: entre fidelidade ao sobrenome e pragmatismo eleitoral, qual escolha maximiza as chances reais de poder? A ausência de resposta unânime aprofunda a fragmentação.

O ponto central é inequívoco: a candidatura de Flávio não emerge de convergência natural, mas de uma decisão verticalizada para preservar a centralidade de um nome no imaginário político da direita. Contudo, hegemonia não se transmite por herança; constrói-se por legitimidade reconhecida pelos pares e pela base social. Sem essa validação, a tentativa de sucessão tende a intensificar, e não pacificar, as disputas no interior do próprio campo.

RESERVAS – A ausência de unanimidade, portanto, não é detalhe periférico — é o elemento definidor dessa pré-candidatura. As reservas de lideranças evangélicas, a autonomia crescente de Michelle, o protagonismo de quadros jovens, os atritos entre irmãos e as tensões com a direção partidária compõem um mosaico que desmonta a imagem de coesão automática. O bolsonarismo já não opera sob comando incontestável.

Nesse contexto, a candidatura de Flávio Bolsonaro simboliza menos a continuidade de um projeto do que a exposição de sua crise estrutural. O que se apresenta como sucessão revela-se, na prática, uma guerra fria doméstica pelo controle de um capital político em progressivo desgaste.

No fim, a tentativa de transmissão dinástica explicita a fragilidade estrutural do movimento: privado do eixo que lhe garantia unidade, o bolsonarismo passa a enfrentar o peso das próprias ambições que o sustentaram — e que agora, sem mediação central, operam como força centrífuga de fragmentação.