Bolsonaro já avisou o que pretende fazer; Nogueira, Lira e Aras dobraram a aposta e ficaram no barco
Por Vera Magalhães (foto)
Os grandes momentos históricos se prestam, entre outras coisas, a separar os grandes homens e mulheres dos anões morais. Não seria diferente quando Jair Bolsonaro leva o país à revoltante situação de todo dia ter de afirmar sua democracia, algo que julgávamos página infeliz virada da nossa História, com a licença do poeta.
Diante da evidência de que Bolsonaro contestará a realização e depois o resultado das eleições, figuras preeminentes de vários espectros da sociedade civil cunharam e subscreveram um manifesto em que palavras gastas de repúdio dão lugar a um aviso sem rodeios de que isso não será tolerado.
Ex-ministros do Supremo Tribunal Federal, banqueiros, empresários, ex-ministros de Estado, ex-presidentes do Banco Central, pessoas que certamente têm muitas divergências quanto aos caminhos a seguir na política e na economia, mas sabem que nenhum deles prescinde do Estado Democrático de Direito, deram os braços, como nas marchas dos anos 1960, e marcharam na contramão das hordas golpistas que vêm sendo abertamente arregimentadas pelo presidente da República para solapar as liberdades um pouquinho a cada dia.
Tem um simbolismo muito forte a escolha do ex-decano do Supremo Celso de Mello como porta-voz do libelo contra o autoritarismo. Outro tipo de peso tem a presença de nomes do primeiro time do capitalismo brasileiro na carta.
Foi isso que balançou os alicerces dos arautos do bolsonarismo. Sentiram tanto que, atordoados, sua única reação foi a infantilidade de dizer que os banqueiros, vejam só, protestam contra Bolsonaro porque tiveram prejuízos bilionários com… a implantação do Pix!
Como se a modalidade de pagamento e transferência bancária fosse obra de Bolsonaro, que nem sabia do que se tratava, quando foi finalmente implantada, depois de gestada no governo Michel Temer. Risível, não fosse a bobagem, que partiu do ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, e logo foi reverberada, ter sido comprada pelos seguidores mais fiéis da seita.
Nogueira, assim como outros líderes do Centrão, aquele que antes era equiparado a um bando de ladrões nas paródias musicais do general Augusto Heleno, está de tal maneira comprado em ações de Bolsonaro que chega a ser curioso imaginar o contorcionismo político que terá de operar para desembarcar e pular no bote de Lula caso ele vença a eleição. Sim, a questão aqui não é o “se”, mas o “como”.
Vale para ele e para seu correligionário Arthur Lira, o “dono da pauta” do Brasil, que não hesitou em vestir a camisa de Bolsonaro quando era cobrado a vestir outra, a de presidente da Câmara, e dizer um “não” republicano às ameaças de seu parceiro de solapar o processo eleitoral.
São eles os anões morais, cuja covardia contrasta com a coragem civil de um Celso de Mello — um desses contrastes que a História não perdoa e registra.
E Augusto Aras? O que dizer de alguém que, no exercício de uma das funções essenciais no arranjo republicano, usa seus auxiliares como biombos, tira férias e pede, na volta, que sua mesa esteja linda e os pepinos devidamente arquivados? E que, enquanto isso, acha que engana alguém com uma coleção de vídeos acabrunhados e antigos?
Já houve procuradores-gerais com propensão ao arquivamento, caso de Geraldo Brindeiro, e outros que trataram de implodir a própria imagem ao confessar tendências homicidas, como Rodrigo Janot. E há Augusto Aras, cuja disposição a agradecer com a própria honra uma nomeação de que sabe ser usurpador torna os antecessores menos piores.
Bolsonaro já avisou o que pretende fazer. Nogueira, Lira e Aras dobraram a aposta e ficaram no barco. Os democratas estão em terra, dizendo que resistirão aos corsários. O papel de cada um no registro do nosso tempo também já está consignado.
O Globo
