Minha impressão se tornou então mais forte com o que aconteceu em 2019, logo após o fatídico dia 18 de agosto, quando a fumaça das queimadas na Amazônia transformou em noite uma tarde de São Paulo. Aquelas imagens, seguidas por investigações jornalísticas que mostraram uma articulação de produtores rurais para celebrarem um Dia do Fogo, gerou uma mobilização nacional e internacional frente aos descalabros da política anti-ambiental de Bolsonaro.
Esta pressão da opinião pública fez com que Bolsonaro tivesse que recuar. Lembrem-se que o vice-presidente Hamilton Mourão foi designado para apaziguar os ânimos, fazendo a interlocução com parceiros históricos do Brasil nos investimentos em conservação, como a Alemanha e a Noruega.
Enquanto o mundo estava cobrando o governo Bolsonaro, a questão ambiental e a Amazônia estavam também no centro da Igreja Católica. O Papa Francisco fez das mudanças climáticas e da proteção à Amazônia uma das principais marcas de seu pontificado. Realizou o primeiro encontro de bispos para propor uma ação conjunta com os povos indígenas, o Sínodo da Amazônia. Estendeu os braços aos melhores cientistas do mundo no tema. Os brasileiros Carlos Nobre, do INPE, e Ima Vieira, do Museu Emílio Goeldi, foram alguns dos que tiveram o ouvido atento de Francisco.
Por isso, não me parece aleatório que Flávio Bolsonaro tenha resolvido atacar a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para achar um culpado ao dano que lhe faz a polêmica da Nossa Senhora. Os bispos sempre estiveram antenados com a questão ambiental e suas campanhas, ao longo dos anos, destacaram temas como o direito à terra, a proteção das terras indígenas e contra a estatização do acesso à água. A CNBB sempre foi uma defensora do meio ambiente como algo primordial na conduta de uma instituição religiosa.
Durante a presidência de Bolsonaro foram muitos os embates com a CNBB e outras alas da igreja católica, como a Comissão Pastoral da Terra e o Conselho Indigenista Missionário. Estes braços da igreja foram fiéis à sua missão e apontaram os desmantelamentos que estavam sendo promovidos por Bolsonaro. Assim como fez seu pai, Flávio ataca a CNBB pois sabe que ela será uma instituição que não deixará ocultas as maldades planejadas contra os territórios.
Cientes de seu papel em defender “a Casa Comum”, os bispos da Região Norte 1 da CNBB, que inclui as dioceses do Amazonas e de Roraima, divulgaram no último dia 23 um comunicado para conclamar aos brasileiros que levem em consideração as questões socioambientais no momento do voto. “O cardeal Leonardo Steiner, Arcebispo Metropolitano de Manaus e presidente do Regional Norte 1, nos recorda que na Carta encíclica Laudato Sí, publicada em 2015, Papa Francisco defende que o cuidado com o meio ambiente é inseparável da justiça social, da dignidade humana e da vida em sociedade”, diz um dos trechos da carta aberta.
Eu arrisco dizer que a Amazônia é tão icônica como uma santa. E não só para os brasileiros: o mundo venera a Amazônia. Infelizmente, e isso não é fake news, há muitos dispostos a destruir essa maravilha da natureza. Divina? Não sei. Aí, vai de cada um.