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quarta-feira, outubro 07, 2026

O primeiro turno não terminou a eleição, porém mudou a pergunta a ser feita ao eleitor.

Publicado em 7 de outubro de 2026 por Tribuna da Internet

Resultado de 4 de outubro não encerrou a disputa

Pedro do Coutto

Se a vitória de Flávio Bolsonaro sobre Lula no primeiro turno surpreendeu, mais surpreendente ainda poderá ser uma eventual nova mudança de comportamento do eleitorado no segundo turno. O resultado de 4 de outubro não encerrou a disputa presidencial: criou uma eleição diferente, com apenas dois nomes, novas alianças, outra distribuição dos votos e, sobretudo, uma pergunta que passou a ocupar o centro do debate nacional: o eleitor que derrotou Lula no primeiro turno pretende confirmar essa escolha ou apenas expressou, nas urnas, a dimensão do desgaste acumulado pelo governo?

O primeiro turno revelou um dado político que não pode ser ignorado. A força eleitoral de Flávio Bolsonaro não pode ser explicada apenas pela transferência automática do capital político de Jair Bolsonaro. Há uma parcela do eleitorado que parece ter utilizado a votação para expressar insatisfação com o governo, com a política tradicional e com a forma como o poder público vem respondendo a problemas concretos do cotidiano.

MUDANÇA GERACIONAL – A eleição mostrou também uma mudança geracional e comportamental importante: candidatos com forte presença digital, comunicação direta e capacidade de mobilização nas redes conseguiram falar com segmentos que a política institucional nem sempre alcança.

Nesse ponto, a campanha de Lula enfrentou uma dificuldade que não se resume à publicidade eleitoral. O problema foi também de comunicação política. Uma máquina de governo pode produzir programas, anúncios, discursos e agendas, mas isso não significa necessariamente que esteja conseguindo conversar com a sociedade.

Entre uma mensagem produzida nos centros de decisão e aquilo que chega ao eleitor existe hoje uma distância considerável. Redes sociais, vídeos curtos, influenciadores e comunicação segmentada alteraram profundamente a maneira como a política é consumida. O eleitor não espera mais necessariamente que o candidato vá até ele pela televisão; muitas vezes, espera que apareça no ambiente digital em que já está.

PERCEPÇÃO POLÍTICA – O resultado do primeiro turno sugere, portanto, que a campanha governista teve dificuldade para transformar realizações administrativas em percepção política. E esse é um problema mais profundo do que uma escolha equivocada de marqueteiros. Quando um governo precisa explicar permanentemente o que fez, em vez de ser reconhecido espontaneamente por aquilo que entregou, existe uma questão de comunicação, mas também de percepção pública.

Os escândalos envolvendo corrupção e irregularidades ajudaram a compor esse ambiente. A Operação Sem Desconto, que investiga descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões, continuou produzindo desdobramentos em 2026, inclusive com novas ações da Polícia Federal. Nos Correios, investigações também atingiram funcionários públicos em casos de fraudes envolvendo encomendas, indenizações e registros internos.

Esses episódios possuem uma dimensão política particularmente sensível porque atingem áreas que entram diretamente na vida do cidadão. Quando um aposentado vê descontos que não autorizou, quando uma empresa estatal aparece associada a investigações ou quando uma instituição pública volta ao noticiário por suspeitas de irregularidades, a discussão deixa de ser abstrata. O problema passa a ser traduzido em uma pergunta simples: quem controla o Estado está efetivamente conseguindo protegê-lo?

CORRUPÇÃO – É preciso, entretanto, não transformar essa percepção em uma explicação única para o resultado eleitoral. Pesquisa Datafolha realizada em março mostrava que a corrupção era apontada como principal problema do país por 9% dos entrevistados, atrás de saúde, segurança e economia. Em julho, a mesma pesquisa mantinha saúde, segurança e economia à frente da corrupção. Isso indica que o eleitorado brasileiro não estava votando exclusivamente sob a lógica dos escândalos.

O caso do Banco Master acrescentou uma camada ainda mais delicada à eleição: a crise de confiança nas instituições. As investigações envolvendo Daniel Vorcaro e as relações reveladas entre o banqueiro, agentes públicos, empresários e integrantes do sistema de Justiça produziram uma sucessão de episódios que ultrapassaram a esfera financeira. Documentos e mensagens tornados públicos alimentaram questionamentos sobre relações pessoais e profissionais envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal e pessoas próximas a eles. O próprio STF registrou que o plenário ainda não havia examinado o mérito de uma das petições relacionadas ao caso.

A dimensão eleitoral desse episódio não deve ser subestimada. Pesquisa Datafolha de setembro apontou que 47% dos eleitores diziam que a crise envolvendo ministros do STF e o Banco Master teria alguma influência sobre sua decisão para presidente. Entre os eleitores que não se identificavam nem com o lulismo nem com o bolsonarismo, 43% afirmavam que o caso teria grande influência.

INSATISFAÇÕES – O ponto central, portanto, talvez não seja afirmar que o eleitor votou simplesmente “contra a corrupção”. A leitura mais consistente é outra: uma parte do eleitorado chegou ao primeiro turno carregando uma combinação de insatisfações — com o governo, com a economia, com a segurança, com a política tradicional e com a percepção de deterioração da confiança nas instituições. Os escândalos funcionaram como elementos capazes de condensar esse sentimento, mas não o explicam sozinhos.

Há ainda uma questão geracional que merece atenção. Lula continua dispondo de uma base social expressiva entre eleitores mais velhos, de menor renda e do Nordeste, enquanto Flávio apresentou maior força entre segmentos de renda mais alta, no Sul e entre eleitores evangélicos. Na reta final do primeiro turno, o Datafolha registrava empate entre os dois em algumas faixas etárias e no Sudeste, mostrando que a divisão eleitoral não se resume a uma simples oposição entre regiões.

É justamente por isso que o segundo turno será diferente. Flávio Bolsonaro precisa transformar a vantagem obtida no primeiro turno em uma maioria nacional; Lula precisa demonstrar que a votação recebida por seus adversários no primeiro turno não constitui um bloco homogêneo de oposição ao seu governo. Entre os dois existe um eleitorado que não pertence integralmente a nenhum dos campos e que pode decidir o resultado final.

PERSUASÃO – A disputa, daqui para frente, será menos sobre quem conseguiu mobilizar melhor sua base e mais sobre quem conseguirá convencer os eleitores que ainda não transformaram sua insatisfação em uma escolha definitiva. O primeiro turno mostrou a força do voto de rejeição e a capacidade de deslocamento do eleitorado. O segundo exigirá algo diferente: capacidade de construir uma maioria.

É nesse ponto que a campanha de Lula enfrenta seu maior desafio. Não basta apresentar indicadores positivos da administração federal. Será necessário responder à percepção de que problemas de corrupção, falhas de controle e crises institucionais atingiram justamente setores do Estado que deveriam transmitir segurança ao cidadão. Ao mesmo tempo, será necessário recuperar uma comunicação capaz de dialogar com eleitores mais jovens e com públicos que já não acompanham a política pelos canais tradicionais.

REJEIÇÃO – Mas o desafio também é de Flávio Bolsonaro. A vitória no primeiro turno não significa que todos os votos recebidos por ele sejam necessariamente votos de adesão ao seu projeto político. Parte deles pode ter sido simplesmente uma manifestação de rejeição ao governo. Transformar voto de protesto em voto de convicção é uma tarefa eleitoral diferente.

O segundo turno, portanto, não será apenas uma repetição do primeiro. Será um novo julgamento político, no qual cada candidato terá de explicar ao eleitor não apenas por que o adversário não deve governar, mas por que ele próprio deveria receber um mandato para conduzir o país.

E talvez essa seja a principal mensagem das urnas de 4 de outubro: a sociedade não entregou apenas uma vantagem eleitoral a Flávio Bolsonaro. Entregou aos dois candidatos uma tarefa mais difícil — convencer um país que chegou ao segundo turno mais desconfiado, mais fragmentado e menos disposto a aceitar respostas prontas.