
Lula não foi ao debate e deu entrevista ao Flow Podcast
Pedro do Coutto
Na reta final da eleição, quando Lula lidera o primeiro turno, mas aparece empatado com Flávio Bolsonaro num eventual segundo, a decisão de não enfrentar os adversários no último debate abre uma questão que vai além da estratégia de campanha: o que se ganha ao evitar o confronto e o que se perde ao deixar o palco para os concorrentes? Mas a Globo cancelou o debate e resolveu o problema de Lula.
Lula decidiu não participar do debate da TV Globo, o último confronto entre os candidatos à Presidência antes do primeiro turno. A escolha pode ser compreendida pela lógica clássica de uma campanha que procura proteger quem lidera: se o candidato aparece na frente, por que oferecer aos adversários a oportunidade de transformá-lo no alvo comum da noite?
O problema é que, a poucos dias da votação, proteger uma vantagem também pode significar abrir mão de uma oportunidade de consolidá-la.
DISPUTA APERTADA – A questão ganhou peso porque o cenário eleitoral não é de ampla vantagem. A pesquisa Quaest divulgada em 28 de setembro mostrou Lula com 39% no primeiro turno, contra 34% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, os dois apareceram rigorosamente empatados em 42%.
O Datafolha, divulgado no mesmo dia, registrou 40% para Lula e 36% para Flávio no primeiro turno e 47% a 45% num eventual segundo turno. São levantamentos diferentes, com metodologias e períodos de campo próprios, mas convergem num ponto essencial: Lula chega à reta final numericamente à frente no primeiro turno, sem transformar essa liderança em uma vantagem confortável para a segunda etapa.
É nesse contexto que a ausência do debate deixa de ser apenas uma decisão de agenda. Ela passa a fazer parte da própria disputa eleitoral. O candidato que não comparece não precisa responder aos adversários, mas também não pode responder ao que eles dizem sobre ele. E, num debate, não está em jogo apenas o desempenho diante das câmaras.
REPERCUSSÃO – O confronto é recortado, comentado, transformado em manchetes, vídeos curtos e argumentos de campanha. Como observou a cientista política Luciana Veiga ao siye Nexo, o efeito de um debate ultrapassa quem o acompanha ao vivo e repercute na imprensa, nas redes sociais e nas conversas cotidianas.
A campanha de Lula aparentemente fez uma escolha bastante objetiva: evitar que o presidente se tornasse o alvo simultâneo dos demais candidatos. É um cálculo compreensível. Num debate sem Lula, os adversários precisam dividir entre si o espaço de confronto. Com Lula presente, a tendência seria que boa parte das perguntas e ataques se concentrasse justamente sobre quem ocupa o Palácio do Planalto e lidera as pesquisas. A ausência reduz esse risco.
Mas há um segundo lado da equação. Ao não comparecer, Lula também entrega aos adversários uma oportunidade rara: falar sobre o governo, criticar o presidente e apresentar-se ao eleitor sem a possibilidade de uma resposta imediata. Flávio Bolsonaro, em particular, chega ao debate como o principal adversário de Lula nas pesquisas e tinha, portanto, um incentivo evidente para explorar a ausência. A própria campanha do senador tratou o encontro como uma oportunidade de alcançar eleitores ainda não consolidados.
REFLEXOS – Não é possível medir antecipadamente quanto isso pode produzir em votos. Tampouco seria correto atribuir à ausência um efeito eleitoral que somente as urnas poderão revelar. Eleições não funcionam como uma equação em que cada decisão de campanha produz automaticamente determinado resultado. Um debate pode gerar repercussão intensa e pouca alteração nas intenções de voto; uma frase pode dominar as redes e não ultrapassar o universo dos eleitores já convencidos.
Ainda assim, existe uma diferença importante entre não saber o efeito de uma decisão e ignorar o seu risco. A poucos dias da eleição, cada espaço de comunicação ganha valor. E Lula decidiu não ocupar justamente um dos espaços de maior visibilidade da campanha.
A escolha também produz um contraste curioso. Se a Globo não cancelasse o debate, Flávio Bolsonaro teria a oportunidade de falar diretamente aos eleitores no último grande debate televisivo antes da votação, enquanto Lula estará fora da arena em que os adversários poderão confrontá-lo sem que ele esteja presente para responder.
PODCAST – O presidente terá outros canais de comunicação — e, nesta quinta-feira, participou de uma entrevista ao Flow Podcast no mesmo horário do debate —, mas não se trata exatamente da mesma coisa. Na entrevista, Lula controla em maior medida o ambiente e o formato. No debate, precisa reagir ao imprevisível.
É justamente aí que a decisão merece ser observada. Uma campanha pode controlar a mensagem de um candidato, mas não controla completamente a narrativa produzida pela ausência dele.
O silêncio também comunica. Pode ser interpretado como prudência por quem já vota no candidato, mas como fuga do confronto por quem ainda está indeciso. Não se trata de afirmar que uma dessas interpretações prevalecerá, e sim de reconhecer que, ao faltar, Lula deixou de participar da disputa sobre o significado de sua própria ausência.
CÁLCULO DELICADO – O momento torna esse cálculo ainda mais delicado. A Quaest registrou queda no número de indecisos entre seus dois últimos levantamentos, de 8% para 5%, enquanto a soma de brancos, nulos e eleitores que afirmavam não votar chegou a 10%. O Datafolha também apontou um eleitorado próximo da definição. Isso significa que a eleição entrou numa fase em que pequenas movimentações podem ganhar importância, sobretudo na disputa pelo voto daqueles que ainda consideram alternativas ou que podem mudar de escolha nos últimos dias.
A decisão de Lula, portanto, precisa ser analisada por aquilo que ela é: uma aposta estratégica. O presidente preferiu preservar-se do confronto direto em vez de correr o risco de transformar o debate num grande julgamento público de seu governo e de sua candidatura.
A pergunta que permanece não é se a estratégia é certa ou errada — algo que somente o resultado eleitoral poderá ajudar a responder —, mas se o benefício de evitar o risco foi suficiente para compensar o espaço que ficou aberto aos adversários.
EXPECTATIVAS – Na política, liderar também significa administrar expectativas. Quem está à frente não precisa apenas evitar perder; precisa convencer que merece continuar na frente. Lula chega ao primeiro turno com vantagem nas principais pesquisas, mas sem a folga que permitiria tratar o segundo turno como uma questão distante.
O empate registrado por Quaest e Datafolha no confronto direto com Flávio Bolsonaro torna a disputa particularmente sensível.
Por isso, a ausência no debate da Globo pode acabar sendo lembrada menos pelo que Lula deixou de dizer e mais pelo que permitiria que os outros dissessem sem ele. Nos últimos dias de uma eleição apertada, não participar de um confronto não elimina o debate. Apenas muda quem ocupa o palco.