Lula tenta quarto mandato lutando contra desgaste de imagem após 44 anos em eleições
Por Caio Spechoto, Mariana Brasil e Catia Seabra/Folhapress
04/10/2026 às 07:19
Foto: Ricardo Stuckert/Arquivo/PR
O presidente Lula
O presidente Lula (PT), 80, chega à sua sétima e provavelmente última disputa presidencial neste domingo (4) com o desafio de superar a fadiga acumulada em seus 44 anos de trajetória eleitoral.
Em uma eleição polarizada, uma das tarefas de sua campanha é convencer o eleitor a lhe dar mais um crédito de confiança, alimentando o desejo de continuidade com promessas de mudança.
Essa missão foi expressa na mensagem do presidente em seu último programa na TV. "Você quer que a vida melhore. Eu também. Só que mudança tem direção. E a minha é para frente. Porque mudar para trás, a gente já viu no que deu", disse o atual presidente.
Aliados avaliavam antes mesmo do início da campanha que o petista, protagonista na política desde a década de 1980, teria como principal obstáculo uma espécie de cansaço do eleitor.
Lula enfrenta o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) que, apesar de ser político profissional no Rio de Janeiro desde 2003, se vende como novidade no cenário nacional.
Pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (3) mostra os dois tecnicamente empatados, com chance de disputa se encerrar ainda no primeiro turno. Lula registra 45% das intenções de votos válidos, ante 42% de Flávio Bolsonaro (PL). A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou menos.
A campanha de Lula buscou aumentar a rejeição do eleitorado a Flávio. Um dos temas explorados foi o caso Dark Horse –o candidato do PL foi flagrado, em troca de mensagens, pedindo dinheiro ao dono do extinto Banco Master, Daniel Vorcaro, para um filme sobre o pai.
O presidente trouxe de volta ao debate público casos que ligam o candidato do PL às milícias do Rio de Janeiro. Petistas reproduziram especulações de que o adversário retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil, boato que desgastou Flávio e renovou o ânimo de aliados de Lula faltando poucos dias para o primeiro turno.
Lulistas fizeram ainda críticas ao adversário por causa da proximidade com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O discurso de soberania nacional foi acompanhado pelo receio de interferência estrangeira na eleição.
Apesar desses esforços, Lula e Flávio Bolsonaro chegam ao final do primeiro turno com níveis elevados e próximos de rejeição —em torno de 45%, segundo o Datafolha divulgado na última quinta-feira (1º).
A campanha de Lula começou com uma tentativa de melhorar a aprovação do governo. As primeiras peças publicitárias tinham tom mais leve.
Depois que Flávio Bolsonaro ganhou espaço nas pesquisas, os discursos passaram a ser mais incisivos contra o adversário, e a comparação entre os governos Lula e Jair Bolsonaro se tornou constante.
As correções de rumo ao longo da campanha provocaram embates no entorno de Lula. Além de trocas de acusações sobre a falta de material de campanha, como panfletos, adesivos e bandeiras, e controvérsias sobre plano de governo, houve divergências também sobre ações da própria gestão.
Coordenador da equipe, o presidente do PT, Edinho Silva, teve uma discussão acalorada com o ministro-chefe da Secom, Sidônio Palmeira, sobre a proibição das bets. Segundo relatos, os dois ficaram ao menos uma semana sem se encontrar na reta final.
Lula lançou nas últimas semanas de campanha ações de governo com apelo eleitoral –como o reajuste de 15% no Bolsa Família, a proibição das bets e uma terceira fase do programa Desenrola, voltado a pessoas endividadas. As medidas miram o público de baixa renda, que tradicionalmente apoia Lula, e setores conservadores que condenam o vício em jogo.
O candidato à reeleição defendeu o fim da escala de trabalho 6x1, projeto que tramita no Senado e deve ser colocado em pauta pelo presidente Davi Alcolumbre (União) na terça (6); prometeu universalizar o Pé-de-Meia, programa de bolsas para estudantes do ensino médio; e propôs manter a política de valorização do salário mínimo, uma das vitrines do PT.
O petista também deu ênfase ao combate à violência contra a mulher. A primeira-dama, Janja Lula da Silva, teve protagonismo neste e em outros aspectos da campanha. O eleitorado feminino é considerado essencial para o esforço de reeleição.
Emissários do presidente na área econômica propagaram a mensagem de que, se reeleito, ele adotará medidas para conter o aumento da dívida pública. O próprio Lula prometeu, em dois encontros com empresários e banqueiros, ajustar as contas do governo e contornar as desconfianças do setor produtivo e do mercado financeiro.
No campo policial, aliados de Lula admitem que ele sofreu desgaste por causa do escândalo do Banco Master. Lula não é citado nem investigado, mas o caso atingiu ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) como Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques.
O dano político, dizem aliados, ocorre em razão da proximidade que ele cultivou com a Suprema Corte ao longo deste mandato.
As revelações levaram Lula a cobrar investigações publicamente. O petista também passou a defender que ministros do Supremo tenham mandato definido e se comprometeu com uma reforma do Judiciário.
A passagem que causou mais desgaste ao presidente, porém, foram as ligações de duas pessoas próximas a ele à lobista Roberta Luchsinger, investigada por supostamente participar do esquema de desvios de aposentadorias do INSS.
Três inquéritos foram abertos contra o filho mais velho de Lula, Fábio Luis, conhecido no noticiário como Lulinha. Marco Aurélio Santana Ribeiro, ex-chefe de gabinete do presidente apelidado de Marcola, deixou a campanha após revelações de que a lobista pagou despesas suas.
Aliados avaliam, porém, que o principal risco à campanha de reeleição é a percepção do eleitorado sobre os preços e os níveis de endividamento da população. Os dois assuntos foram constantemente explorados por Flávio Bolsonaro, assim como a segurança pública.
O presidente afirmou em conversas internas ver dificuldades para ampliar seu eleitorado em um eventual segundo turno. O motivo é que nenhum dos outros candidatos relevantes deve apoiá-lo em uma disputa contra Flávio Bolsonaro.
O fato de ser o único candidato de esquerda pontuando nas pesquisas também é usado como argumento para Lula ter se afastado dos debates televisionados. Ele não foi a nenhum desses compromissos, com o argumento de que se tornaria alvo de todos os concorrentes ao mesmo tempo.
Apesar de três vezes eleito, Lula buscou encampar um discurso antissistema, aplicando esse rótulo à elite econômica, da qual se oporia em ações como a tributação de pessoas de alta renda.
Houve um esforço concentrado para apresentar Lula aos jovens. Não como um presidente com três mandatos, mas como alguém que enfrenta interesses poderosos. Uma das medidas nesse sentido foi resgatar seu passado de líder sindical, quando liderava greves na ditadura militar.
A escolha do estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), como palco do primeiro ato de campanha foi parte dessa tática. Lula emergiu para o debate público nacional há cerca de 50 anos naquele mesmo local.
Aos 80 anos, o petista promete que esta é sua última eleição. A primeira foi em 1982, quando concorreu pelo então recém-fundado PT a governador de São Paulo e perdeu. Depois foi deputado constituinte, perdeu três eleições para presidente e ganhou outras três.
Na última vez, em 2022, disse que não disputaria a reeleição, mas voltou atrás alegando querer impedir o retorno da direita bolsonarista ao poder.
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