Publicado em 19 de setembro de 2026 por Tribuna da Internet

Candidatos disputam eleitores fora da bolha da polarização
Pedro do Coutto
O reajuste do Bolsa Família anunciado pelo presidente Lula da Silva a poucas semanas do primeiro turno recoloca no centro da campanha uma questão recorrente na política brasileira: onde termina a política social e começa o cálculo eleitoral? O governo elevou em 15,04% o benefício mínimo, de R$ 600 para R$ 691, com custo adicional estimado em R$ 5,8 bilhões em 2026.
A justificativa oficial é fiscal, mas a proximidade com a eleição torna inevitável que a medida também seja interpretada pelo seu efeito político. A oposição levou o caso ao Tribunal Superior Eleitoral, enquanto a Advocacia-Geral da União sustenta que o reajuste recompõe a inflação acumulada e não altera os critérios de acesso ao programa.
SOBREPOSIÇÃO – O ponto central está justamente nessa sobreposição. Benefícios sociais têm impacto concreto sobre milhões de famílias e não podem ser reduzidos a instrumentos de campanha. Ao mesmo tempo, seria ingênuo ignorar o momento escolhido para o anúncio. O Datafolha mais recente mostra Lula com 39% e Flávio Bolsonaro com 36% no primeiro turno, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. No segundo turno, o cenário também é de empate técnico: 46% para Lula e 44% para Flávio. Entre os eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos, Lula chega a 46%, contra 29% de Flávio; entre beneficiários do Bolsa Família, a diferença é de 53% a 28%.
Isso ajuda a explicar a importância eleitoral da medida, mas não permite concluir que o reajuste produzirá votos automaticamente. O eleitor de menor renda não constitui um bloco eleitoral programável. Avalia sua situação econômica, emprego, preços, serviços públicos, segurança e a própria percepção sobre o governo. Uma política de transferência de renda pode influenciar preferências, mas não determina, sozinha, o comportamento nas urnas.
PROXIMIDADE – O dado mais relevante talvez esteja na forma como o eleitorado se comporta diante de um eventual segundo turno. Lula e Flávio aparecem próximos, apesar de suas bases serem diferentes. Lula conserva vantagem entre os eleitores de menor renda, enquanto Flávio apresenta maior força em segmentos de renda mais elevada. Ambos também registram rejeição de 47%, segundo o Datafolha.
É nesse ponto que a eleição deixa de ser apenas uma disputa entre candidatos e revela uma disputa entre identidades políticas. O eleitor que rejeita Lula pode estar votando contra o governo tanto quanto aquele que rejeita Flávio pode estar votando contra o campo político associado à família Bolsonaro. O antilulismo, portanto, não deve ser confundido automaticamente com uma preferência consolidada por determinado candidato. Pode funcionar como força de deslocamento: primeiro o eleitor decide quem não quer no segundo turno; depois escolhe o que fazer com a alternativa disponível.
Essa dinâmica explica a importância da disputa pela segunda colocação. Nas pesquisas nacionais mais recentes, Caiado e Zema continuam no jogo, mas aparecem muito atrás de Lula e Flávio. No Datafolha de setembro, Caiado tinha 4% e Zema, 2%, enquanto Flávio chegava a 36%. Isso não significa que o segundo turno esteja definido. Pesquisas retratam momentos específicos e podem mudar até a votação. O que mostram, porém, é o estreitamento da disputa nacional em torno de dois polos.
RELAÇÕES DE VORCARO – A crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal acrescentou outra dimensão à campanha. As revelações relacionadas ao Banco Master e às relações de Daniel Vorcaro com diferentes personagens do mundo político, empresarial e jurídico atingiram a imagem da Corte. O episódio envolvendo André Mendonça e a suspeita sobre o pagamento de ternos tornou-se particularmente simbólico. O ministro apresentou notas fiscais para afirmar que havia pago pelas peças, contestando a versão de que teria recebido os ternos como presente.
Esse detalhe é importante porque uma análise responsável não pode transformar suspeita em fato comprovado. A questão institucional é mais ampla: por que relações financeiras, comerciais ou pessoais entre autoridades e empresários submetidos a investigações passaram a ocupar o centro do debate nacional? E por que episódios dessa natureza produzem dúvidas sobre os limites entre interesses privados e a esfera pública?
ENTORNO DO MASTER – A crise ganhou complexidade porque diferentes ministros passaram a aparecer, por razões distintas, no entorno do caso Master. Dados de conversas de Vorcaro foram encaminhados à Polícia Federal e chegaram a ministros como Cristiano Zanin, Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, André Mendonça e Luiz Fux. Mendonça também atua em processos relacionados ao caso e levantou o sigilo de documentos envolvendo pagamentos de Vorcaro.
O problema, portanto, ultrapassou a discussão sobre um ministro específico. O Supremo passou a enfrentar uma situação em que sua própria autoridade institucional está sendo discutida publicamente. Isso é especialmente delicado porque a Corte deveria funcionar como instância de resolução de conflitos, e não permitir que seus conflitos internos se transformem em combustível permanente da disputa política.
DIANTEIRA – No Rio de Janeiro, a dinâmica estadual mostra que o eleitor não necessariamente reproduz a lógica presidencial. Eduardo Paes aparece na frente na corrida pelo governo estadual, enquanto Benedita da Silva lidera a disputa pelo Senado, mas a segunda cadeira permanece aberta. A configuração demonstra que o eleitor pode combinar escolhas diferentes para presidente, governador e senador.
No fim, a eleição não será decidida apenas pela força de uma política social, pelo peso de um sobrenome ou pela crise institucional. Lula possui uma base social importante e a capacidade de produzir políticas com impacto direto sobre o cotidiano. Flávio Bolsonaro consolidou-se como principal nome do campo bolsonarista nas pesquisas atuais. Ambos, entretanto, chegam à fase decisiva com rejeições elevadas e precisam ampliar seus eleitorados.
DISPUTA ACIRRADA – É essa a característica essencial da eleição de 2026. O país não está diante de uma disputa em que um lado simplesmente domina o outro, mas de duas forças reconhecíveis tentando conquistar eleitores que não estão integralmente dentro de nenhum dos campos. O Bolsa Família pode preservar parte da vantagem de Lula entre os mais pobres; a crise do Supremo pode alimentar a rejeição ao governo; o sobrenome Bolsonaro pode consolidar Flávio. Nenhuma dessas variáveis, isoladamente, explica o resultado.
A disputa entrou numa fase em que cada movimento possui simultaneamente dimensão administrativa, eleitoral e institucional. O desafio do eleitor será distinguir política pública de propaganda, investigação de condenação, suspeita de prova e polarização de escolha. É nesse terreno, mais complexo do que as pesquisas de intenção de voto sugerem, que a eleição será efetivamente decidida.