segunda-feira, setembro 14, 2026

Dino cita honorários de R$ 1 milhão e despachos de Cezinha de Madureira com ministros do STF em decisão

 

Dino cita honorários de R$ 1 milhão e despachos de Cezinha de Madureira com ministros do STF em decisão

Deputado atuaria com advogadas para influenciar decisão de magistrados

Por Mônica Bergamo/Folhapress

14/09/2026 às 17:15

Foto: Gustavo Moreno/STF/Arquivo

Imagem de Dino cita honorários de R$ 1 milhão e despachos de Cezinha de Madureira com ministros do STF em decisão

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino relata, em decisão que autorizou a Operação Transparência 3, de busca e apreensão da PF (Polícia Federal) contra o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP), que o parlamentar e Valéria Rodrigues Linhares trabalhavam para influenciar ministros da Corte a votarem a favor de interesses de clientes que seriam "captados" pela advogada Mariângela Fialek.

Os pagamentos chegariam a R$ 1 milhão, e mais aditivos em caso de sucesso. Cezinha de Madureira teria a função de despachar diretamente com os magistrados. Ele não é advogado.

Segundo a PF, a investigação contra ele visa "apurar tráfico de influência junto a tribunais superiores".

Valéria Rodrigues Linhares é advogada. A PF afirma no relatório que, "conforme apurado, é esposa do representado [Cezinha]". A assessoria dela nega e diz que "Valéria nunca foi esposa do deputado".

Ex-assessora do deputado federal Arthur Lira quando ele presidiu a Câmara dos Deputados, Mariângela Fialek, conhecida como "Tuca", já foi alvo de outra operação da PF. Ela foi acusada de ter a chave do orçamento secreto e de trabalhar "sem preocupação" ou "interesse republicano" para o encaminhamento de emendas de comissão.

"Os diálogos extraídos revelam a atuação articulada e continuada de três pessoas com papéis complementares e definidos: Mariângela Fialek ("Tuca"), advogada que capta e formaliza as causas e elabora os memoriais; Valéria Rodrigues Linhares, advogada e esposa do representado [Cezinha], que redige, revisa e assina os instrumentos de honorários e de cessão de crédito e sinaliza a evolução do 'assunto'; e o próprio deputado federal Cezinha de Madureira, a quem cabe o suposto contato pessoal e direto com ministros de tribunais superiores", diz a PF em relato incluído por Dino no despacho.

Os policiais afirmam que "dessas três pessoas, duas aparentemente são advogadas e um aparentemente não é (no caso, o citado parlamentar), cabendo a este último [Cezinha] fazer 'despachos' em gabinetes do Poder Judiciário".

Segundo a PF, o padrão de conduta do grupo "é constante e se repete em todos os episódios: (i) Fialek encaminha ao parlamentar [Cezinha] a peça, o memorial ou o andamento processual; (ii) o parlamentar confirma que "falou", "despachou", "pediu" ou que será atendido pelo ministro; (iii) a advogada cobra o resultado ("Manda notícias", "Me de boas notícias!", "Qual o próximo passo"); e (iv) paralelamente, formaliza-se o instrumento de honorários de êxito, em valores incompatíveis com a simples atuação técnica e vinculados exclusivamente ao resultado do julgamento".

A PF inclui conversas entre Fialek e o deputado que indicam que ela encaminhava a ele memorias endereçados a ministros como Kassio Nunes Marques, André Mendonça, Gilmar Mendes e Edson Fachin. Caberia ao parlamentar agendar encontros com os magistrados para defender as causas.

O órgão detalha as articulações do grupo para um despacho com Nunes Marques.

Segundo o relato, "as expressões 'vou pedir a ele', 'eu preciso pedir expressamente'e a identificação nominal do interlocutor ('ministro Kassio') evidenciam, em juízo de cognição sumária, que o parlamentar não se limitava a encaminhar peças: comprometia-se a formular pedido pessoal e direto ao julgador, em favor de partes representadas por advogadas a ele ligadas por vínculo conjugal e por interesse econômico. A menção a 'aquela pessoa que tinha um tema para tratar com ele' sugere, ainda, a existência de terceiros intermediados pelo representado, cuja identificação depende do acesso aos seus dispositivos".

Em julho de 2025, diz ainda a PF, Mariângela Fialek "encaminhou a Valéria, para análise ("Analisa para nós, por favor, que eu estou no telefone e não vou conseguir ler"), o "Contrato de cessão de crédito– Igor Rodrigues Advogados Associados e Valéria Rodrigues Linhares", cujo objeto é a Reclamação Constitucional nº 81.608, em trâmite no Supremo Tribunal Federal, e cuja Cláusula 5ª prevê a cessão, à sociedade de advocacia da esposa do representado, do montante de R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais) dos honorários a serem recebidos em caso de êxito".

Na mesma data, segundo a PF, foi encaminhado aditivo ao contrato que estipulava "o valor de R$ 2.000.000,00 (dois milhões de reais) a título de honorários advocatícios em caso de sucesso, sendo este considerado a concessão da liberdade do contratante, ainda que com a imposição de medidas cautelares".

O valor seria pago, de acordo com o contrato, "em até 10 (dez) dias após o resultado."

Cezinha de Madureira negou em nota nesta segunda-feira (14) que tenha cometido irregularidades após ser alvo de buscas.

O comunicado, assinado por sua defesa, diz ainda que "conforme a jurisprudência do STF estabelece, medidas de tamanha repercussão deveriam ter sido conduzidas com a devida distância de qualquer circunstância política ou eleitoral".

"Com a tranquilidade de quem confia plenamente na Justiça e certo de sua conduta sempre ilibada, o deputado federal Cezinha de Madureira está à disposição das autoridades e prestará todos os esclarecimentos necessários", afirma, na nota.

"O deputado está certo de que, assegurados o contraditório e o amplo acesso da defesa aos elementos da investigação e à integra do processo, os fatos serão devidamente esclarecidos no devido processo legal, com a demonstração de que nenhuma irregularidade foi cometida".

A PF fez buscas no apartamento de Valéria Linhares em SP.

Em agosto, a PF apreendeu R$ 510 mil em dinheiro vivo em uma bagagem que Valeria Linhares levava na mão.

Os advogados dela afirmam que vão pedir vista do processo para depois se manifestar.

A operação tem potencial para escalar ainda mais a disputa em que o STF está mergulhado desde que o ministro André Mendonça divulgou um relatório da PF detalhando as relações entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro,

Cezinha de Madureira é aliado e amigo próxmo de de Mendonça.

Segundo a coluna Painel, do jornal Folha de São Paulo, o magistrado vê a operação da PF contra o parlamentar como mais uma tentativa de intimidá-lo diante da crise sem precedentes em que vive a corte.

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