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sábado, setembro 26, 2026

A MP de Lula tirou o tumor à força; a Flávio Bolsonaro restou o papel de gritar que a cirurgia é ilegal

📑 ENSAIO CRÍTICO: A GEOMETRIA DA CONVENIÊNCIA — A MP DO BANIMENTO E AS LINHAS TENSAS DE FLÁVIO BOLSONARO


I. A Canetada do Planalto contra a "Ciranda da Arrecadação"


A Medida Provisória editada nesta tarde pelo presidente Lula estabeleceu a proibição total e imediata de apostas de quota fixa, jogos online e cassinos digitais (como o "Jogo do Tigrinho"). Ao instituir o dia 6 de outubro como o prazo fatal para que todos os domínios e aplicativos de bets saiam definitivamente do ar no país, o governo federal buscou colher dois dividendos simultâneos: estancar o endividamento catastrófico das famílias de baixa renda e atingir o coração de um eleitorado (mulheres do Sudeste e evangélicos) que as pesquisas internas apontavam como o núcleo de sustentação de seu rival.


A reação de Flávio Bolsonaro foi fulminante. Gravando vídeos de campanha a apenas nove dias do primeiro turno, o senador rotulou a MP de um "estelionato eleitoral" e uma "solução fajuta". Na narrativa do parlamentar do PL, a canetada é puramente oportunista: o governo teria criado o problema ao sancionar a regulamentação do setor em dezembro de 2023 por pura avidez arrecadatória, e agora joga com o calendário eleitoral ao emitir uma MP que caducará em quatro meses, abrindo brecha para que o "tumor" retorne com força total após a apuração dos votos.


II. O Histórico Oculto: A Distinção entre o Púlpito e a Planilha


O cruzamento do discurso inflamado de hoje com a atuação legislativa de Flávio Bolsonaro desnuda a geometria variável de seu pragmatismo. No mesmo vídeo em que acusa Lula de "ferrar a vida das pessoas", o senador fez uma promessa cirúrgica: "Nos meus quatro anos como presidente do Brasil, não vai ter cassino online, nem Tigrinho". O silêncio sepulcral de sua fala em relação às bets esportivas de quota fixa não é um esquecimento; é método.


Ao discursar na formatura de praças da Polícia Militar do Rio de Janeiro, o candidato foi forçado a fazer uma distinção drástica entre o pecado do azar digital e o mercado do entretenimento esportivo:


"Uma coisa é você permitir, como já é permitido no Brasil há décadas, que brasileiros, por livre e espontânea vontade, possam apostar nos jogos que são reais, no jogo de futebol. Sou contra, mas é o que está em vigor".


A manobra do clã visa a blindar os contratos bilionários que sustentam a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o ecossistema comercial do esporte. O histórico recente do senador mostra que, durante a tramitação da Lei nº 14.790 no final de 2023, a bancada da oposição não operou para banir a jogatina, mas sim para moldar as taxações de forma a favorecer as grandes plataformas de quota fixa. Flávio Bolsonaro sempre flutuou no limite da defesa do fomento de cassinos físicos e resorts sob o pretexto de "atrair turismo e investimentos estrangeiros", mas agora, diante do colapso econômico provocado pelas bets no bolso do trabalhador, tenta equilibrar-se na corda bamba: condena o "Tigrinho" para acalmar os pastores conservadores e protege o bilionário mercado das apostas de futebol para não asfixiar o faturamento das redes de mídia e das camisas dos clubes.


III. A Gramática Eleitoral a Nove Dias do Voto


A publicação da MP hoje converteu as apostas no tema central da reta final da campanha ao Planalto, destronando parcialmente os ensaios de segurança pública e as crises de bastidores. A oposição sabe que a radicalidade do texto de Lula colocou o bolsonarismo em uma encruzilhada moral. Ao tentar jogar no colo do atual presidente a culpa pela expansão da epidemia do vício — ignorando que a liberação original das bets de quota fixa ocorreu em 2018, no governo Michel Temer, e passou em branco por quatro anos de gestão de seu próprio pai —, Flávio tenta estancar a sangria de votos de sua base.


A verdade matemática que cruza as urnas e os decretos é implacável: o candidato do PL não pode chancelar o banimento completo do futebol porque isso implodiria suas pontes com os barões da comunicação; mas também não pode defender o jogo virtual sob o risco de perder de vez as mulheres evangélicas do Sudeste que hoje sofrem os efeitos do colapso financeiro doméstico. A MP de Lula tirou o tumor à força; a Flávio Bolsonaro restou o papel de gritar que a cirurgia é ilegal, rezando secretamente para que o paciente continue dependente do remédio que financia o espetáculo do poder.