Flávio e os dois milicianos que deram o azar de morrer, por Raul Monteiro*
Por Raul Monteiro*
16/07/2026 às 07:57
Foto: Lula Marques/Arquivo/Agência Brasil
Por enquanto, Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, nega, alegando que é abordado por muitas pessoas nas ruas pedindo para tirar fotos com ele, mas dada a expectativa que o cercou nos últimos dias envolvendo a possibilidade de ser o protagonista de registros comprometedores, inclusive em vídeo, a foto publicada ontem nos jornais em que aparece ao lado do chefe da milícia de Daniel Vorcaro tem tudo para ser verdadeira. Primeiro, porque parece incrível que por um motivo aleatório qualquer um miliciano decida abordar Flávio numa esquina a fim de posar ao seu lado como um fã que busca desesperadamente um popstar.
Segundo, por que Flávio tinha que ter logo entre seus admiradores Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o "Sicário", figura apontada pela polícia como uma espécie de faz-tudo do mal do dono do Banco Master? Com efeito, não se pode dizer que Flávio está nos seus melhores momentos desde que a pré-campanha começou. Primeiro, foram as revelações sobre suas relações perigosas com Vorcaro, a quem pediu dinheiro para bancar um filme sobre o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), cujo destino continua até agora desconhecido. Em seguida, o ataque desferido de forma consistente pela madrasta, Michelle.
A ex-primeira-dama fez questão de rememorar uma crise de seis meses atrás, envolvendo uma aliança eleitoral acertadamente articulada por Flávio no Ceará com o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB), para buscar carimbá-lo como misógino, mesmo sabendo da enorme resistência a seu nome no eleitorado feminino e evangélico. Mas por trás do que hoje é interpretado como uma vingança, segundo se especula, estariam também as revelações feitas pela Operação Compliance Zero de que o enteado teria negociado com o dono do Master os recursos para produzir a filmebiografia do pai sem que lhe desse participação nem mesmo ao ex-presidente sobre o montante captado.
Dos filhos de Bolsonaro, Flávio desde o princípio é apontado como o mais frágil. Seu envolvimento com as rachadinhas ainda como deputado estadual no Rio de Janeiro, além da compra, no curso do governo do pai, de uma mansão cujo valor se diz em Brasília que foi muito maior do que o oficial, sempre foram apontados como sinais de que teria dificuldades de sustentar uma candidatura presidencial dado o risco de estar também metido em outras confusões. Mas o preferido de Jair, Eduardo, tão radical ou mais extremista do que ele, acabou por se inviabilizar ao migrar para os Estados Unidos e fazer campanha por pressões dos EUA contra o Supremo Tribunal Federal.
A opção do pai por ele, portanto, foi resultado da falta de opção ante o projeto de manter o eleitorado bolsonarista sob seu domínio, mesmo que à custa de perder a eleição e ver escorrer pelos dedos a chance de ajudar na vitória de um presidente que lhe assegurasse o indulto para deixar a prisão domiciliar. A verdade é que se Flávio atrai milicianos, não se pode dizer que eles têm sorte na sua admiração pelo candidato. Assim como "Sicário", que contam ter se suicidado na cadeia, Adriano da Nóbrega, miliciano condecorado por ele na Assembleia carioca, foi morto na Bahia numa operação conduzida curiosamente pela polícia estadual sem tempo de contar sua história.
*Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.