Publicado em 8 de maio de 2026 por Tribuna da Internet

Charge do Aroeira (Metrópoles)
Malu Gaspar
Rafael Moraes Moura
O Globo
Uma das autoridades que Daniel Vorcaro deve implicar em sua delação é o ministro Jhonatan de Jesus, relator dos processos do Banco Master no Tribunal de Contas da União (TCU). Fontes ligadas às tratativas disseram que o dono do Master vai explicar aos investigadores o que significam mensagens e documentos apreendidos no celular dele sobre o TCU e o ministro – como a minuta de um despacho suspendendo todas as decisões do Banco Central (BC) sobre o Master —, além de detalhar os pagamentos a influenciadores que divulgaram vídeos defendendo o tribunal e atacando o BC.
O acordo de Vorcaro entrou nesta quarta-feira em uma nova etapa das tratativas com a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Federal (MPF), depois da apresentação da proposta formal de delação. Após as negociações sobre o conteúdo das revelações e o ressarcimento a ser pago pelo ex-banqueiro, o acordo será encaminhado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, que decidirá se homologa ou não.
TRANSPARÊNCIA – Jhonatan disse que “não tem conhecimento de qualquer conteúdo de eventual proposta de colaboração premiada mencionada” e que nunca teve contato com Vorcaro nem com o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa. O ministro ainda afirmou que sua atuação no Tribunal de Contas da União “sempre se pautou pela legalidade, transparência e rigor técnico”.
Há no TCU nove processos que tratam direta ou indiretamente do Master, como os que envolviam a fracassada compra pelo BRB e a destituição de dois gerentes da Caixa Asset que se opuseram a uma negociação de R$ 500 milhões com o Master.
Em meados de dezembro, o ministro ainda chegou a dar um ultimato de 72 horas para o Banco Central explicar os motivos da liquidação extrajudicial do Banco Master, apontando indícios de “precipitação” na decisão e sugerindo que poderia desfazer a medida.
INSPEÇÃO – Em janeiro, já com as informações do BC, Jhonatan determinou que fosse feita uma inspeção no processo sobre o Master “com máxima urgência” na autoridade monetária e ainda chegou a ameaçar reverter a medida.
Nessa mesma época, influenciadores haviam recebido propostas de pagamento para disseminar nas redes vídeos apoiando a decisão do ministro e atacando o Banco Central. Em um caso pelo menos, o pagamento pelo “projeto DV”, em referência às iniciais de Daniel Vorcaro, tinha relação com um empresário ligado ao banqueiro.
INDICAÇÃO – A repercussão do caso, seguida da pressão de colegas do TCU, de integrantes do Supremo e de agentes do mercado financeiro, fizeram o ministro desistir da ofensiva. Ex-deputado do Republicanos de Roraima, Jhonatan foi indicado para o TCU em 2023 por influência de lideranças do Centrão como o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) e Ciro Nogueira (PP-PI).
Ciro admite ser amigo de Daniel Vorcaro e foi autor no Senado de medidas legislativas que favoreciam os negócios do Master, além de ter operado nos bastidores contra a instalação da CPI do Banco Master.
MINUTA – Outro ponto que a delação premiada de Vorcaro pode esclarecer tem a ver com a minuta de um despacho do Tribunal Contas da União determinando que o BC suspendesse “toda e qualquer decisão” a respeito do Banco Master. O documento, apócrifo, foi encontrado no celular de Vorcaro e estava entre os mais de 12 mil arquivos compartilhados com a CPI do INSS.
Além de determinar que o BC sobrestasse toda e qualquer decisão sobre o Master, o documento também determinava a oitiva de técnicos do Banco Central em um prazo de dez dias.
O texto foi criado em 29 de agosto de 2025, momento em que o Banco Central se aproximava de um veredicto sobre o futuro do negócio entre o BRB e o Master – e já havia cobrado uma série de medidas do banco de Vorcaro para resolver problemas de liquidez.
COMPRA VETADA – Em 2 de setembro, o governo Ibaneis Rocha(MDB), no Distrito Federal, pediu ao TCU que colocasse técnicos para acompanhar a análise da operação Master-BRB, manifestando preocupação com a demora na decisão. No dia seguinte, o Banco Central vetou a compra do Master pelo BRB.
No mesmo dia da decisão do BC, o governo distrital fez um pedido ao TCU, para “suspender de forma imediata e integral os efeitos de quaisquer autorizações, deliberações ou decisões ou manifestação regulatória por agentes do Banco Central do Brasil” – uma redação bem semelhante à minuta de decisão encontrada no celular de Vorcaro.
CRÍTICA – A postura do governo do DF foi duramente criticada em auditoria da Corte de Contas. “Essa insistência em utilizar, de forma oblíqua, a via de controle externo na possível tentativa para reverter decisão técnica que havia concluído pela inviabilidade da operação, especialmente diante das irregularidades já detectadas (indícios de fraudes nas cessões anteriores, ativos de existência duvidosa, ausência de due diligence), revela potencial descolamento entre a gestão da coisa pública e os princípios constitucionais da administração pública”, afirmaram os técnicos do TCU, em parecer assinado em 5 de fevereiro deste ano.
“A possível tentativa de pressionar o regulador setorial para aprovar operação que expunha o BRB a riscos bilionários, invocando a atuação do TCU como instância recursal do BCB [Banco Central do Brasil] em matéria de discricionariedade técnica regulatória, configura conduta que merece reprovação no âmbito do controle externo e reforça a necessidade de apuração das responsabilidades pelos órgãos competentes.”