Se a versão cinematográfica não corresponde aos fatos conhecidos, tanto melhor, como explica Paolo Demuru, doutor em semiótica e autor de Políticas do encanto, extrema direita e fantasias da conspiração. “Para seguir maravilhando, toda narrativa conspiratória tem que nutrir a dúvida, induzindo seus seguidores a descobrirem sozinhos, ‘a verdade’. As pessoas encontram no conspiracionismo um motivo de realização, um trampolim para fugir do anonimato e se sentirem mais espertas. O processo da descoberta das tramas secretas do mundo é gratificante, reaviva a autoestima individual e coletiva”, escreve Demuru.
Dark Horse tem endereço certo: os eleitores brasileiros que vão votar a menos de dois meses do lançamento do filme; e os simpatizantes da terra de Donald Trump (além de falado em inglês, o ator e diretor citados por Flávio em seu áudio como “renomadíssimos”, são conhecidos por produções destinadas à direita americana). Se não for o suficiente para angariar votos por aqui, serve à narrativa golpista em caso de derrota.
Além da filantropia de Vorcaro (com dinheiro alheio, obtido através de fraudes a investidores e a fundos de previdência de servidores públicos) pode haver recursos de outra origem no filme. Duas ONGs de Karina, o Instituto Conhecer e a Academia Nacional de Cultura, foram beneficiadas com 4,6 milhões de reais em emendas pix (dinheiro público gasto sem transparência) de deputados federais do PL. Entre elas, 2 milhões de reais enviados em 2025 pelo próprio Frias.
Nesse sentido, não há dúvidas de que o filme – com objetivo eleitoral e financiado com quantia desproporcional às doações de pessoas físicas, transferido com uso de fundos, além de recursos não identificados, o que também é proibido – pode se configurar em abuso de poder econômico, uso indevido dos meios de comunicação e financiamento político irregular, como alegam os advogados do Grupo Prerrogativas e o deputado Rogério Correia (PT-MG) em petição ao TSE para que proíba a divulgação do filme antes das eleições.
Mas, ainda que os aliados do presidente Lula obtenham um veredito favorável, terão que lidar com outras nuances do fascínio conspiratório que emana de Dark Horse. A proibição, como sabemos, será retratada como injusta censura pela extrema direita e pode trazer ainda mais credibilidade e encanto à versão fantasiosa dos Bolsonaro que certamente encontrará meios de circular. É essa a esparrela que já está armada para a democracia nas próximas eleições.