segunda-feira, maio 04, 2026

Cadeira vazia no Supremo torna-se a escolha que pode redefinir o jogo

Publicado em 4 de maio de 2026 por Tribuna da Internet

Lula precisa indicar uma mulher para a vaga em aberto no STF

Pedro do Coutto

A rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal não foi apenas um revés político — foi um choque institucional de grandes proporções. Pela primeira vez em mais de um século, o Senado recusou um nome indicado à mais alta Corte do país, expondo fissuras profundas entre Executivo, Legislativo e até o próprio Judiciário.

Diante desse cenário, a análise do jornalista Elio Gaspari, publicada na Folha de S. Paulo e no O Globo, vai além do episódio imediato. Ela aponta para uma encruzilhada estratégica: se o presidente Lula da Silva quiser evitar uma nova derrota, não basta recompor articulação política — será preciso mudar o eixo da escolha.

INDICAÇÃO DE UMA MULHER – Gaspari sugere que a saída mais segura é a indicação de uma mulher para a vaga ainda aberta no Supremo. Não por um gesto simbólico isolado, mas por cálculo político. Segundo a leitura do colunista, há um constrangimento institucional e social que tornaria muito mais difícil ao Senado rejeitar uma candidata mulher, especialmente em um ambiente já marcado por desgaste e polarização.

Essa hipótese não surge no vazio. A história recente do STF mostra que nomes como Cármen Lúcia, Rosa Weber e Ellen Gracie foram indicadas sem enfrentar níveis extremos de rejeição política. Não se trata de ausência de controvérsia — algo inexistente em Brasília —, mas de um padrão menos conflituoso na aprovação.

Ainda assim, a tese de Gaspari, embora pragmática, merece leitura crítica. Apostar exclusivamente no fator de gênero como blindagem política pode simplificar demais um problema mais complexo: a perda de controle do governo sobre sua base no Senado.

FALHAS NA ARTICULAÇÃO – A rejeição de Messias revelou algo mais estrutural — falhas de articulação, leitura equivocada de forças e, sobretudo, autonomia crescente de lideranças parlamentares. Ou seja, indicar uma mulher pode reduzir o risco imediato, mas não resolve o problema central: a fragilidade da coordenação política do Planalto.

Há também um risco silencioso nessa estratégia. Se a escolha for percebida como instrumental — uma tentativa de evitar nova derrota, e não uma decisão baseada em critérios técnicos e institucionais —, o efeito pode ser o oposto do esperado. Em vez de pacificar, pode alimentar resistências veladas.

Por outro lado, ignorar o conselho e insistir em uma indicação tradicional — especialmente alguém identificado como próximo ao presidente — pode levar a um cenário ainda mais delicado. Uma segunda rejeição, em sequência, não seria apenas desgaste: seria a cristalização de um governo incapaz de influenciar decisões-chave do Congresso em pleno ano eleitoral.

AUTORIDADE POLÍTICA – E aqui está o ponto central: mais do que preencher uma cadeira no Supremo, Lula precisa reconstruir autoridade política. A escolha do próximo nome será menos um ato jurídico e mais um teste de governabilidade.

No fim, a equação não é apenas sobre gênero, nem apenas sobre mérito. É sobre timing, leitura de forças e capacidade de adaptação. Em política, como a própria história de Lula demonstra, sobreviver não depende de evitar derrotas — mas de saber reagir a elas antes que se tornem irreversíveis.