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Declarações internas sinalizam crise de imagem
Pedro do Coutto
Há momentos na vida institucional de um país em que o problema deixa de ser apenas jurídico e passa a ser, sobretudo, político — no sentido mais amplo da palavra, o da confiança pública. O Supremo Tribunal Federal vive hoje exatamente esse ponto de inflexão. E o dado mais relevante não é a crítica que vem de fora, mas o reconhecimento que começa a emergir de dentro.
Declarações recentes de Edson Fachin e Cármen Lúcia sinalizam, com rara clareza, que há uma crise de imagem em curso — e que ela precisa ser enfrentada com seriedade, sob o risco de aprofundar ainda mais o desgaste institucional.
CONTRADIÇÃO – Os números ajudam a dimensionar esse cenário. Levantamentos de institutos como Datafolha e Quaest revelam uma contradição que define o momento: a maioria dos brasileiros considera o Supremo essencial para a proteção da democracia, mas, ao mesmo tempo, acredita que seus ministros concentram poder demais e demonstra níveis crescentes de desconfiança.
Trata-se de um paradoxo revelador. O problema não está na existência da Corte, mas na percepção sobre sua atuação. O STF continua sendo visto como indispensável, mas já não é percebido como imune a dúvidas — e, em política institucional, a dúvida é sempre corrosiva.
BANCO MASTER – Nesse ambiente, o escândalo envolvendo o Banco Master surge como catalisador de uma crise que já vinha se desenhando. As suspeitas, ainda que indiretas, de conexões entre o sistema financeiro e figuras públicas ampliaram a sensação de promiscuidade entre esferas que deveriam permanecer rigidamente separadas.
Ainda que não haja comprovação formal que incrimine diretamente ministros, o dano reputacional segue outra lógica: a da aparência. No Judiciário, não basta ser imparcial — é preciso parecer imparcial. Quando essa percepção se rompe, instala-se um ruído que contamina decisões, discursos e a própria legitimidade da instituição.
É nesse ponto que a fala de Fachin ganha densidade. Ao afirmar que o Judiciário precisa enfrentar a crise “com olhos de ver e ouvidos de ouvir”, o ministro aponta para algo incomum em estruturas de poder: a disposição para a autocrítica. Mas reconhecer o problema é apenas o primeiro passo.
MUDANÇA DE POSTURA – O desafio real está em evitar a armadilha, também apontada por ele, de repetir soluções antigas para problemas novos. A crise atual não se resolve com notas institucionais ou discursos protocolares. Ela exige mudança de postura, maior transparência e uma comunicação menos defensiva e mais esclarecedora.
Ao mesmo tempo, episódios recentes, como a tentativa de indiciamento de ministros no âmbito da CPI do Crime Organizado — ainda que rejeitada — contribuíram para intensificar o ambiente de tensão entre os poderes. Nomes como Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli passaram a ocupar o centro de um debate público cada vez mais marcado por suspeitas, narrativas políticas e disputas de poder.
Mais uma vez, o problema central não é apenas jurídico — é simbólico. A percepção de que o Supremo se tornou um ator político, ainda que contestada internamente, encontra eco em parcelas relevantes da sociedade.
EQUILÍBRIO – O ponto central dessa crise está no delicado equilíbrio entre poder e legitimidade. Toda Suprema Corte, por definição, concentra autoridade. Isso não é um desvio, mas parte do desenho institucional. O que está em jogo no Brasil é a capacidade de sustentar esse poder com base em confiança pública. Sem essa base, decisões passam a ser interpretadas como movimentos políticos, e não como interpretações da Constituição — o que enfraquece o próprio sistema que a Corte deveria proteger.
A saída, como indicam os próprios sinais internos, não será simples nem imediata. Ela passa por mais transparência, por um esforço real de reconstrução da credibilidade e por uma atuação que reduza, e não amplifique, as tensões institucionais. O reconhecimento da crise por parte de ministros experientes é, sem dúvida, um passo importante. Mas ele só terá efeito se vier acompanhado de mudanças concretas.
No fim das contas, a crise do Supremo não é apenas do Supremo. Ela é um teste para a democracia brasileira. Porque instituições fortes não são aquelas que não são questionadas, mas aquelas capazes de responder aos questionamentos sem perder sua essência. O STF continua sendo essencial. Mas, no momento atual, ser essencial já não basta. É preciso voltar a ser confiável — e, sobretudo, percebido como tal.