domingo, abril 19, 2026

Lula tratará Flávio como submisso a Trump; senador atacará fraqueza petista na economia e segurança

 

Lula tratará Flávio como submisso a Trump; senador atacará fraqueza petista na economia e segurança

Por Gabriel de Sousa e Naomi Matsui/Estadão Conteúdo

19/04/2026 às 07:36

Atualizado em 19/04/2026 às 07:36

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Arquivo/Agência Brasil

Imagem de Lula tratará Flávio como submisso a Trump; senador atacará fraqueza petista na economia e segurança

O presidente Lula

Liderando as pesquisas de intenção de voto até o momento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) já possuem na cabeça as principais estratégias que vão usar um contra o outro durante a campanha eleitoral. Enquanto o petista deve intensificar a classificação de Flávio como ‘subserviente’ ao governo de Donald Trump e como um parlamentar improdutivo, o filho de Jair Bolsonaro tem canalizado as críticas ao presidente nas atuações do governo em áreas como economia, segurança pública e combate à corrupção.

Atualmente, os levantamentos dos principais institutos apontam, para o segundo turno, um empate técnico entre os dois, que possuem grande vantagem sobre os demais candidatos no primeiro turno. Os levantamentos, porém, mostram crescimento de Flávio Bolsonaro, que tinha desvantagem expressiva quando foi escolhido como pré-candidato pelo pai e conseguiu igualar as ações e aparecer inclusive numericamente à frente na maior parte das pesquisas sobre o segundo turno.

As estratégias de Lula contra Flávio

Aliados do presidente apontam que um dos focos será mostrar o adversário como um agente político que agiria de acordo com os interesses dos Estados Unidos caso seja eleito presidente.

Desde que os EUA aplicaram sanções contra autoridades brasileiras e impuseram uma tarifa de 50% sobre produtos nacionais, Lula passou a adotar a retórica de que seu governo defende a soberania do Brasil diante de ameaças externas. Até o slogan do mandato foi modificado, passando de “Governo federal - união e reconstrução” para “Governo do Brasil - do lado do povo brasileiro”, com o objetivo de capitalizar a postura combativa do Palácio do Planalto em relação à Casa Branca.

Nas palavras de um integrante da pré-campanha de Lula, o presidente buscou afirmar, em 2022, que a eleição do bolsonarismo traria riscos internos à independência das instituições. Neste ano, o discurso deve se repetir, mas agora os perigos apontados pelo petista teriam origem estrangeira, com Flávio sendo enquadrado como subserviente a Trump.

Uma mostra de como serão as manifestações públicas de Lula contra Flávio foi observada na última reunião ministerial do governo, realizada no fim do mês passado. Segundo auxiliares, Lula disse que o senador iria “entregar o Brasil para os EUA” e que ele é um “traidor da pátria”.  

A análise do QG petista sobre a importância de relacionar Flávio ao presidente americano Donald Trump, baseia-se em pesquisas como a da Genial/Quaest, publicada no mês passado, que mostrou que um eventual apoio de Trump ao senador aumentaria em 32% as chances de voto em Lula, em 19% em um nome de terceira via e em 28% no próprio senador. Outros 33% afirmaram que escolheriam um candidato alternativo.

Além disso, a campanha focará em mostrar que o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, em 23 anos como deputado estadual e senador, não teve uma lei de destaque de sua autoria. Uma resolução política do PT aprovada no mês passado - isto é, um documento que orienta os rumos do partido - afirma que o senador passou oito anos no Senado sem apresentar projetos voltados ao desenvolvimento do País. A trajetória dele entre 2003 e 2018 como deputado na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) também será apontada como inexpressiva por Lula e seus aliados.

A campanha do presidente também quer que Lula passe a relacionar, com frequência, Flávio ao pai. A ideia é associar a gestão anterior ao senador, transmitindo ao eleitorado a percepção de que um eventual mandato dele seria uma repetição do governo do capitão reformado.

Segundo um integrante da equipe de campanha de Lula, a intenção é afirmar que Flávio também teria ambições antidemocráticas e promoveria privatizações em setores estratégicos do Estado, como o petrolífero, diretamente afetado pelo conflito no Oriente Médio. Nos últimos discursos, o presidente tem ressaltado que a venda da BR Distribuidora, durante o governo Bolsonaro, teria contribuído para o aumento abusivo dos preços em alguns postos de combustíveis.

As polêmicas pessoais de Flávio devem ficar em segundo plano, mas também integram a estratégia do governo. Uma delas é o caso do esquema de “rachadinhas” no gabinete da Assembleia Legislativa do Rio, revelado pelo Estadão, que consistia na apropriação, por Flávio, de parte dos salários dos funcionários quando ele era deputado estadual. O senador sempre negou as acusações.

Outra orientação da equipe a Lula é que o petista passe a rebater diretamente ataques feitos pelo senador. Um exemplo ocorreu no mês passado, quando Flávio chamou o presidente de “Opala velhão”. Em resposta, Lula afirmou que o pai dele - Jair Bolsonaro - à época internado com pneumonia, estava no “desmanche”.

As estratégias de Flávio contra Lula

Pelo lado de Flávio Bolsonaro, os temas de economia, segurança pública e combate à corrupção ganham cada vez mais atenção. Embora Flávio lance mão de munições já conhecidas do público bolsonarista e usadas em eleições passadas pelo pai, há mudanças. O pré-candidato do PL à Presidência deixa em segundo plano a pauta ideológica de sua própria agenda e abandona temas caros à ala mais conservadora da direita.

Ele tem evitado comentários sobre questões como aborto, religiões não cristãs e casamento homossexual, além de não ter tocado em uma das bandeiras que marcaram a família Bolsonaro: o chamado “kit gay”.

A estratégia tem como objetivo conseguir o apoio do eleitorado indeciso e de partidos como o PP, que já declarou que não respaldará Flávio se ele adotar um discurso de extrema direita.

Por ora, em seus discursos, entrevistas e mídias sociais, o pré-candidato do PL foca apenas em Lula, poupando nomes como o do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, pré-candidato pelo PSD, e Romeu Zema (Novo), mirando uma possível aliança em um eventual segundo turno.

Aliados do senador consideram que a polarização contra Lula está posta. “Não vejo hoje nenhuma possibilidade de Flávio ou Lula ganharem a eleição no primeiro turno. Nós temos um cenário já consolidado [entre os dois]. Meu sentimento é que em 2022 as pessoas votaram no Lula para derrotar o Bolsonaro e agora estão votando em Flávio para derrotar o Lula. É uma eleição de rejeição, e quem for menos rejeitado vai ganhar”, afirmou o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI).

Flávio concentra na economia o maior arsenal contra Lula. Um dos principais temas abordados, por exemplo, é o de aumento de impostos durante a terceira gestão do petista.

O senador do PL também tem acenado ao mercado ao defender uma revisão da reforma tributária e redução do número de ministérios. Também não faltam críticas ao atual patamar dos juros no País. “Temos uma taxa de juros das mais altas do mundo, proporcionalmente, e isso reflete na dificuldade de tomar financiamento. Quem quer empreender no Brasil, primeiro, tem que fazer as contas, porque o Estado é sócio-majoritário do seu negócio”, afirmou.

Flávio também tem tentado trazer um tom popular ao abordar temas econômicos, como as críticas aos preços dos alimentos e ao endividamento das famílias. “Metade da população adulta no Brasil tá com o nome sujo na praça. É uma âncora, um peso absurdo na vida de mais de 80 milhões de pessoas. É algo que vai muito além de atrapalhar o João, a Maria a financiar um carro, comprar uma geladeira nova ou fazer uma viagem com a família. Isso representa comer menos, significa panela vazia”, disse nas redes sociais.

Flávio ainda usa as mídias sociais para colar em Lula uma imagem de envolvimento em “escândalos, corrupção e retrocessos”. “Basta um pingo de lucidez para entender que a corrupção é parte inseparável da trajetória de Lula”, escreveu em uma publicação nas redes sociais.

O senador também diz que seu nome representa renovação diante de um Lula e de um PT que são “coisa do passado” e um “projeto falido”. “Aquele produto vencido, se comparar o Lula a um carro, ele é aquele Opala velhão, câmbio manual, já foi bonito, mas hoje não te leva a lugar nenhum e ainda bebe para caramba”, disse, em fevereiro, em evento do BTG Pactual.

Flávio ainda tem reforçado um dos discursos mais usados pelo bolsonarismo: o do combate à violência. Para isso, algumas das propostas são a redução da maioridade penal e o endurecimento penal. “No atual governo, passaram a normalizar o furto de celulares e outros crimes que acontecem todos os dias. O trabalhador sofre com o descaso e a insegurança. Precisamos ter pulso firme”, escreveu em uma rede social.

O senador reconhece a importância do Nordeste em sua campanha e já visitou Estados como a Paraíba e o Rio Grande do Norte. Aliados classificam a região, de forte voto lulista nos últimos pleitos, como crucial para a vitória nas eleições. “Nordeste é nosso desastre”, disse o presidente do PL, Valdemar Costa Neto.

Em entrevista ao programa Papo com Editor, do Estadão/Broadcast, o senador Efraim Filho (PL), pré-candidato ao governo da Paraíba, afirmou que o foco do PL na região é reforçar a comunicação com microempreendedores individuais e trabalhadores considerados “precarizados”, como entregadores e motoristas de aplicativo.

“Nas conversas que eu tive com o presidente [do PL] Valdemar e com o próprio Flávio, o Nordeste não tem uma identidade única. Cada Estado tem sua cultura, sua raiz, suas próprias nuances. Fazer uma estratégia para o Nordeste não é o melhor caminho. Acredito que eles perceberam isso. Cada Estado tem um caminho, cada Estado tem uma estratégia”, disse Efraim.

Flávio, inclusive, já afirmou que não acabará com o programa Bolsa Família, tido como uma marca de Lula no Nordeste.

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