terça-feira, abril 07, 2026

Juros altos e promessas frustradas: o peso do crédito sufoca o Brasil

Publicado em 7 de abril de 2026 por Tribuna da Internet

Charge do Cícero (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

O Brasil atravessa um daqueles momentos em que diferentes crises, aparentemente desconectadas, começam a se entrelaçar e produzir um efeito cumulativo sobre a vida cotidiana da população. Da pressão das dívidas familiares à insegurança urbana, passando por tensões internacionais e promessas políticas não cumpridas, o cenário revela um país que luta para equilibrar suas contas — financeiras e sociais.

Um dos dados mais alarmantes vem do peso do endividamento: famílias brasileiras chegam a comprometer cerca de 29% de sua renda mensal apenas com o pagamento de juros de dívidas acumuladas. Trata-se de um nível de comprometimento que não apenas limita o consumo, mas compromete a própria capacidade de reorganização financeira de milhões de pessoas. Instituições como o Banco Central do Brasil e a Confederação Nacional do Comércio já vinham alertando para o crescimento do endividamento e da inadimplência, fenômenos que se retroalimentam em um ambiente de crédito caro e renda comprimida.

PROMESSA DE CAMPANHA – Durante a campanha eleitoral, o presidente Lula da Silva assumiu o compromisso de reduzir o custo do crédito no país. No entanto, na prática, a estrutura de juros permanece elevada, especialmente em modalidades como cartão de crédito rotativo e cheque especial, cujas taxas podem ultrapassar, em alguns casos, a marca de 400% ao ano. Esse nível é amplamente considerado distorcido até mesmo em padrões internacionais, refletindo uma combinação de risco, estrutura bancária concentrada e ineficiências regulatórias.

O impacto dessa engrenagem é direto e profundo. Com uma fatia significativa da renda comprometida com o pagamento de dívidas, o consumo das famílias desacelera. O comércio sente, a indústria retrai e o crescimento econômico perde fôlego. Trata-se de um efeito em cadeia que ajuda a explicar a dificuldade do país em sustentar ciclos mais robustos de expansão.

O ponto mais sensível — e talvez mais decisivo —  está na estrutura de juros do país. O Brasil convive há décadas com um dos custos de crédito mais elevados do mundo, um fenômeno que não pode ser explicado apenas pela taxa básica definida pelo Banco Central do Brasil. Há uma camada mais profunda, estrutural, que mantém o crédito caro mesmo quando há movimentos de queda na política monetária.

DESCONEXÃO – Na prática, o que se observa é uma desconexão entre a taxa básica de juros e aquilo que efetivamente chega ao consumidor. Enquanto a Selic oscila conforme o ciclo econômico, o crédito ao cidadão comum — especialmente nas linhas mais acessadas, como cartão de crédito rotativo e cheque especial — permanece em patamares extraordinariamente elevados. Em alguns casos, ultrapassando 400% ao ano, o que transforma dívidas relativamente pequenas em compromissos praticamente impagáveis ao longo do tempo.

Esse cenário revela uma distorção que vai além da política econômica conjuntural. Ele reflete uma combinação de fatores: elevada concentração bancária, baixo nível de concorrência, riscos de inadimplência, custos operacionais e um ambiente jurídico ainda considerado incerto para a recuperação de crédito. O resultado é um sistema que precifica o risco de forma extremamente conservadora — e, na prática, penaliza o tomador final.

PRODUTO DE ALTO RISCO – Além disso, há um componente cultural e histórico. O crédito no Brasil sempre foi tratado como um produto de alto risco, o que levou instituições financeiras a adotarem margens amplas como forma de proteção. Esse comportamento, ao longo dos anos, acabou se cristalizando, criando uma espécie de “normalização” de juros elevados, mesmo em momentos em que outras economias operam com taxas significativamente menores.

O impacto disso sobre a economia real é profundo. Juros altos não apenas encarecem o crédito, mas alteram o comportamento das famílias. Ao perceberem que o custo da dívida é elevado e persistente, os consumidores reduzem o consumo, adiam investimentos pessoais e passam a priorizar a liquidez — quando possível. Para aqueles já endividados, a realidade é ainda mais dura: grande parte da renda passa a ser destinada ao pagamento de encargos financeiros, reduzindo drasticamente a capacidade de recuperação.

Para o setor produtivo, o efeito também é negativo. Empresas dependem de crédito para investir, expandir e gerar empregos. Quando o custo desse crédito é elevado, projetos deixam de sair do papel, a produtividade estagna e o crescimento econômico perde tração. Forma-se, assim, um ciclo vicioso: juros altos reduzem o crescimento, e o baixo crescimento, por sua vez, mantém elevado o risco percebido, justificando a manutenção de juros altos.

DESAFIO – Do ponto de vista político, a questão se torna ainda mais sensível. A promessa de redução do custo do crédito, feita pelo presidente Lula da Silva durante a campanha, dialoga diretamente com essa realidade. No entanto, a dificuldade em produzir resultados concretos evidencia o tamanho do desafio. Reduzir juros no Brasil não depende apenas de vontade política, mas de reformas estruturais que envolvem o sistema financeiro, o ambiente regulatório e a própria dinâmica econômica do país.

Sem enfrentar essas distorções de forma mais profunda, o risco é de perpetuar um modelo em que o crédito, em vez de ser instrumento de desenvolvimento, se transforma em mecanismo de aprisionamento financeiro. E, nesse contexto, o peso dos juros deixa de ser apenas um indicador econômico para se tornar um dos principais fatores de pressão sobre a vida cotidiana dos brasileiros.