quarta-feira, abril 08, 2026

Federação com PP acelera racha e União Brasil enfrenta debandada em massa de deputados


Deputados criticam a condução partidária de Rueda

Levy Teles
Danielle Brant
Estadão

Recém-federado com o PP, o União Brasil sofre uma debandada que ameaça reduzir a bancada atual do partido quase à metade, o que levaria a legenda a registrar um dos piores desempenhos na janela partidária de 2026.

Em fevereiro, antes do início do período que permite aos parlamentares trocarem de partido sem perder o mandato, o União Brasil tinha 59 parlamentares. Até o momento, ao menos 22 já deixaram ou indicaram que vão deixar o partido. Há uma expectativa de que outra dezena deixe a legenda, que já foi a terceira maior bancada da Câmara.

CONDUÇÃO DE RUEDA – Os deputados que saem citam a necessidade de ter um palanque mais competitivo em seus Estados, mas também criticam a condução partidária do presidente Antonio Rueda, cuja habilidade política é contestada. Procurado, Rueda não respondeu aos contatos da reportagem.

Pauderney Avelino (AM), que já está com “um pé fora” do partido, atribui a Rueda parte da responsabilidade pela debandada. “O Rueda não é da política, não tem experiência”, afirmou.

Kim Kataguiri (SP), que deixou o União para inaugurar a bancada do recém-criado Missão nesta janela partidária, vê incompetência da direção nacional e conflitos regionais como fatores fundamentais para o abandono de colegas do partido. “O fato de que o partido não tem programa também faz com que cada um saia de acordo com sua conveniência política”, analisou.

NOMINATA – Uma das saídas mais ruidosas do partido foi a do deputado Danilo Forte (CE), que migrou para o PP. O parlamentar negociava a sua filiação ao PSDB e já tinha um acordo com o presidente nacional do partido, Aécio Neves. Porém, segundo Forte, não houve espaço na nominata do Ceará. A nominata é uma expressão que designa a lista dos candidatos de um partido ou de uma federação.

Forte buscava ser o nome do União para a disputa pela vaga do ex-ministro Aroldo Cedraz no Tribunal de Contas da União (TCU). Ele atribui à falta de cumprimento de acordo por parte de Rueda a decisão de ter deixado o partido. A eleição na Câmara para uma cadeira na Corte de Contas ainda não ocorreu.

O parlamentar diz que tinha apoio da bancada e do líder Pedro Lucas (MA) para disputar a vaga no TCU, mas que Rueda se esquivou de indicá-lo. “Eu cumpri todos os prazos que estavam pré-estabelecidos para essa indicação. Pedi a convocação da bancada várias vezes para tomar essa decisão. Mas o embarreiramento se deu exatamente pela postura do presidente”, afirmou.

INTERESSES PESSOAIS –  “Então, diante dessa situação e diante de tudo que a política exige de mim, a minha opção foi tomar meu rumo e ele continuar na postura e no gerenciamento que ele faz da política em função não da conjuntura econômica e social do país, mas dos interesses pessoais que ele coloca acima do partido”, concluiu Forte.

O União Brasil foi criado a partir da fusão do PSL com o DEM e teve o registro aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral em fevereiro de 2022. Dois anos depois, já estava mergulhado em uma crise, depois que um racha interno sacou do comando do União o então presidente Luciano Bivar (PE) e colocou Rueda no poder.

A partir daí, uma série de divergências internas aprofundou as fragmentações no União. No final do mesmo ano, por exemplo, o partido se dividiu novamente ao escolher um novo líder de bancada na Câmara. Rueda atropelou os trâmites partidários, que envolvia eleição para o substituto de Elmar Nascimento, e apontou Pedro Lucas para o posto.

DECLARAÇÃO – Em reunião da bancada no final de 2024, Forte deu uma declaração que agora soa profética. “Hoje o partido pode ter 60 deputados, mas no próximo ano pode ficar 25 ou 30. Todo mundo aqui vai procurar um partido”, afirmou. Nessa mesma reunião, Leur Lomanto Júnior (União-BA), defendeu a reconciliação para evitar que o partido virasse alvo de chacota. “Não queremos voltar à piadinha dos deputados, quando éramos chamados de ‘Desunião Brasil’”, afirmou.

Além dos problemas com Rueda, outro motivo apontado pelos dissidentes é a própria decisão de federar com o PP, que criou impasses regionais. Integrantes do União passaram a disputar com o PP o controle dos diretórios estaduais. Os que perderam a queda de braço decidiram deixar o partido.

A situação ocorreu, por exemplo, com o deputado Alfredo Gaspar, em Alagoas. Aliados do parlamentar dizem que Rueda chegou a prometer que ele assumiria o controle do diretório estadual, que foi para nas mãos do grupo do ex-presidente da Câmara Arthur Lira. Gaspar foi para o PL.

INTERVENÇÃO – Há ainda reclamações de que Rueda decide unilateralmente intervir em diretórios do partido sem avisar parlamentares e prefeitos, aumentando o desgaste. No começo de março, o deputado Mendonça Filho (União-PE) chegou a pedir a Rueda o cancelamento da federação por causa dos entraves regionais. Ele deixou o partido e também migrou para o PL nesta semana.

O partido tenta conter a sangria. O líder da legenda tenta demover os potenciais dissidentes e atrair novos parlamentares. O próprio Rueda entrou em campo, segundo relatos ouvidos pela reportagem, e procurou convencer parlamentares a desistir da ideia de deixar o União, mas sem sucesso na grande maioria dos casos.