EDITORIAL: Memórias de Jeremoabo – O Clube, a Igreja e a Maçonaria: Uma História de Dois Pesos e Duas Medidas
A história de Jeremoabo é rica em detalhes que o tempo, por vezes, tenta apagar, mas que a memória de quem viveu os bastidores se encarrega de preservar. Hoje, trago um relato fascinante sobre como a política, a religião e os interesses sociais se entrelaçaram no passado da nossa cidade, revelando uma curiosa contradição que até hoje faz refletir.
1. Do Elitismo da Filarmônica ao Povo no DAR
Antigamente, a elite jeremoabense se reunia no Clube Social da Filarmônica. Como tudo que não se renova, o clube chegou ao fim, dando lugar ao DAR (Clube Democrático Atlético Recreativo)). O DAR era democrático: ali, a população em geral podia associar-se sem as exigências rígidas de outrora. Foi palco de festas memoráveis e bandas de renome, mas, com o passar dos anos, começou a enfrentar o declínio e, principalmente, a vizinhança.
O saudoso Padre Francisco, que residia próximo ao clube, era o maior crítico do local. Nas missas, não poupava fôlego: pregava que o DAR era o "cancro de Jeremoabo", um "antro de perdição". Dizia ele, com seu jeito incisivo, que as moças que ali frequentavam eram "mais exibidas que bezerro novo". O barulho incomodava a paróquia e o discurso religioso era de combate total ao clube.
2. A Estratégia da Permuta e o "Recuo" do Padre
Naquela época, precisávamos de um local para instalar a Loja Maçônica de Jeremoabo. Surgiu, então, uma ideia estratégica: nós, os irmãos, compraríamos o terreno onde funcionavam os "Cajueiros", entregaríamos o alicerce pronto para o clube e, em troca, ficaríamos com a sede do DAR.
Para viabilizar o plano, candidatei-me à presidência do clube. Contei com o apoio fundamental de Antônio Geraldo (Antônio do Cantinho), que morava vizinho ao barulho e agiu nos bastidores para garantir nossa eleição. Fui eleito presidente e Antônio, tesoureiro. A proposta de permuta foi apresentada e aprovada por quase absoluta maioria dos sócios.
Foi então que a "conveniência" aconteceu. Assim que o Padre Francisco soube que o antigo "antro de perdição" viraria uma Loja Maçônica, sua pregação mudou 180 graus. De repente, o DAR passou a ser descrito no altar como "o único local de diversão para a juventude". Esqueceu-se o "cancro", esqueceu-se a "perdição". O reboliço foi tanto, com beatos e beatas inflamados pela nova retórica, que meu pai me aconselhou a desistir da ideia para evitar um conflito maior.
3. A Solução de Vicente e a Ironia da Rádio Vaza Barris
Nesse impasse, surgiu o espírito pacífico de Vicente de Paula Costa, que doou o espaço para a Maçonaria, solucionando o caso. Mas a moral da história veio logo depois e com um requinte de ironia que Jeremoabo não esquece.
O mesmo prédio do DAR, que o Padre tanto criticava pelo barulho, acabou sendo objeto de um "arranjo" com outra diretoria e foi doado para a Igreja. E o que aconteceu com o antigo "antro de perdição"? Tornou-se a sede da Rádio Vaza Barris, a emissora subordinada à própria Igreja. Em contrapartida a Igreja permutou um terreno que serviu de Sede para a Associação Jeremoabense de Futebol.
Conclusão: Dois Pesos e Duas Medidas
A história revela a face do poder local: o que era pecado quando interessava à Maçonaria, tornou-se santificado quando passou para as mãos da paróquia. O barulho das festas incomodava, mas o som da rádio, no mesmo local, tornou-se a voz da verdade.
Fica o registro de como dois pesos e duas medidas moldaram o patrimônio de Jeremoabo. O clube acabou, a rádio se instalou, e a Maçonaria ergueu suas colunas em solo próprio, longe das intrigas de sacristia, mas com a memória bem viva.
Blog de Dede Montalvão: Resgatando a história, denunciando as contradições e mantendo viva a memória de nossa terra.
José Montalvão Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da ABI (C-002025)