Publicado em 29 de abril de 2026 por Tribuna da Internet

Charge do Fernandão (Arquivo do Google)
Pedro do Coutto
O Brasil convive, mais uma vez, com um velho conhecido: o endividamento crônico das famílias. Não se trata apenas de um dado estatístico frio — embora ele já seja alarmante por si só —, mas de um fenômeno que atravessa o cotidiano, molda o consumo, limita escolhas e, sobretudo, revela fragilidades estruturais da economia. Diante desse cenário, o governo federal prepara uma nova rodada de renegociação de dívidas, uma espécie de continuação ampliada do programa “Desenrola”, com promessa de descontos que podem chegar a até 90% dos débitos.
À primeira vista, a iniciativa parece irresistível. Em um país onde as dívidas de cartão de crédito chegam a patamares próximos de 400% ao ano, qualquer proposta de abatimento soa como um respiro necessário. O problema é que, ao observar com mais cuidado, surgem dúvidas legítimas sobre a eficácia de longo prazo da medida.
METADE DA RENDA ANUAL – O ponto de partida é preocupante: o endividamento das famílias brasileiras já se aproxima de metade da renda anual, um nível que compromete não apenas o consumo, mas a própria estabilidade financeira dos lares. Em resposta, o governo articula, sob a coordenação do Ministério da Fazenda, um programa que busca reorganizar essas dívidas por meio de renegociações com bancos, operadoras de cartão de crédito e instituições financeiras em geral.
A lógica é relativamente simples: substituir dívidas caras — como cartão de crédito e cheque especial — por linhas mais baratas, como crédito consignado ou operações com garantia. Na prática, isso significa trocar um passivo quase impagável por outro, teoricamente mais administrável. Mas é justamente aí que mora a complexidade.
Embora o desconto de até 90% seja um elemento politicamente poderoso, ele não elimina o custo estrutural do crédito no Brasil. Mesmo após a renegociação, os juros previstos giram em torno de 1,9% ao mês — algo próximo de 30% ao ano. Em um ambiente em que os salários crescem abaixo da inflação ou permanecem estagnados, essa equação continua desfavorável. Em outras palavras: o alívio pode ser imediato, mas a sustentabilidade permanece incerta.
FATOR COMPORTAMENTAL – Há ainda um fator comportamental que raramente entra no discurso oficial, mas que é central para entender o problema. Historicamente, programas de renegociação tendem a gerar um efeito colateral previsível: ao aliviar o estoque de dívidas, liberam espaço psicológico e financeiro para novo endividamento. Sem educação financeira consistente e sem aumento real de renda, o ciclo se repete — às vezes com ainda mais intensidade.
Do ponto de vista do sistema financeiro, o programa também carrega ambiguidades. De um lado, há o interesse em recuperar créditos considerados perdidos ou de difícil execução. De outro, existe o risco de compressão das margens, especialmente se o governo conseguir impor taxas mais baixas nas novas operações. Instituições como Itaú, Bradesco, Santander, Nubank e outras devem participar ativamente desse processo, ao lado de bancos públicos como Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) também entra como articuladora desse esforço coletivo.
Politicamente, o timing da medida não é coincidência. O anúncio previsto para o entorno do Dia do Trabalhador carrega simbolismo e estratégia. Programas que aliviam diretamente o bolso do cidadão tendem a produzir efeitos rápidos na percepção popular — algo especialmente relevante em um contexto pré-eleitoral. Há, portanto, um claro componente de capital político embutido na iniciativa.
DILEMA – Mas reduzir a discussão a uma leitura eleitoral seria simplificar demais o problema. A verdade é que o Brasil enfrenta um dilema mais profundo: como conciliar inclusão financeira com sustentabilidade econômica? O crédito, quando bem utilizado, é uma ferramenta de mobilidade social. Quando mal estruturado, torna-se uma armadilha silenciosa.
O sucesso — ou fracasso — do novo programa dependerá menos do volume de descontos e mais da capacidade de alterar essa dinâmica estrutural. Isso passa por três frentes essenciais: redução consistente das taxas de juros, aumento real da renda e fortalecimento da educação financeira. Sem esses pilares, qualquer iniciativa tende a funcionar como um paliativo, e não como solução.
Enquanto isso, milhões de brasileiros seguem diante de uma escolha difícil: renegociar e tentar recomeçar — ou continuar presos a uma espiral de dívidas que parece não ter fim. O governo oferece uma saída. Resta saber se ela é, de fato, uma porta de saída ou apenas mais um corredor dentro do mesmo labirinto.