Publicado em 8 de abril de 2026 por Tribuna da Internet

Servidores atuavam como consultores de Vorcaro
Rafael Moraes Moura
O Globo
Um ano antes de o Banco Central decretar a liquidação do Master, o banqueiro Daniel Vorcaro minimizou problemas com o recolhimento compulsório sobre depósitos em uma troca de mensagens de julho de 2024 com Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-chefe-adjunto do departamento de supervisão bancária do Banco Central.
O atraso nos depósitos foi um dos motivos apontados em novembro de 2025 pela autoridade monetária ao encerrar as atividades do Master, que também enfrentava uma profunda crise de liquidez, além de descumprir uma série de normas que regem o sistema financeiro nacional. A troca de mensagens entre Vorcaro e Paulo Sérgio foi obtida após a apreensão do celular e a quebra do sigilo telefônico do banqueiro e foi compartilhada com a CPI do INSS.
TEMOR – A comissão encerrou suas atividades no mês passado sem aprovar um relatório final após o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), se recusar a autorizar a prorrogação dos trabalhos e impedir a abertura de uma nova frente de investigação em torno do caso Master, cujos desdobramentos apavoram a cúpula do Congresso e do Judiciário.
Na conversa extraída pelos investigadores do celular de Vorcaro, o banqueiro é informado pelo então chefe-adjunto do BC de que autoridade monetária estava debruçada sobre os problemas no cumprimento dos compulsórios, considerado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e pelo Banco Central um fundamental instrumento de regulação financeira.
Os compulsórios são depósitos que as instituições financeiras são obrigadas a “guardar”, como forma de controlar a quantidade de dinheiro em circulação e aumentar a segurança do sistema financeiro nacional. Eles são fiscalizados permanentemente pelo BC e podem ser uma justificativa para decretar a intervenção em um banco.
QUESTÃO GRAVE – Na resposta enviada a Paulo Sérgio, o dono do Master tenta minimizar a gravidade da questão. “Juntou câmbio valor alto com bloqueio do capital. Acabaram não aprovando ainda”, escreveu em 10 de julho de 2024. E adicionou: “Essa semana tem 2 bi de caixa entrando de captação institucional”, provavelmente em referência a fundos de pensão estaduais e municipais que compraram os títulos do Master entre 2023 e 2024.
De acordo com um monitoramento do Banco Central enviado ao TCU, 6 de junho de 2024 – ou seja, um mês antes da troca de mensagens entre Vorcaro e Paulo Sérgio – foi o último dia em que o Master “manteve um saldo de ativos de alta liquidez em montante suficiente para cobrir os vencimentos dos depósitos na janela de 30 dias”. O documento foi encaminhado à Corte de Contas no âmbito de um dos processos que apuram a atuação da autoridade monetária no caso Master.
Em novembro de 2024, o Banco Central constatou a dificuldade do Master de captar recursos junto a investidores institucionais, além de identificar diversos episódios de recolhimento insuficiente dos depósitos compulsórios. O cenário levou o BC a alertar o Master de que poderia aplicar “medidas prudenciais preventivas”, conforme previsto em uma resolução do Conselho Monetário Nacional de 2011.
NOTIFICAÇÃO – Como se sabe, a situação só se deteriorou. Cinco meses depois, em abril de 2025, o Banco Master foi notificado pelo Banco Central de que as ações implementadas até aquela época não tinham sido suficientes para mitigar o risco de liquidez do conglomerado.
Em 8 de maio de 2025, o Master chegou a pedir ao Banco Central uma “dispensa temporária” da exigência de recolhimento compulsório sobre os depósitos à vista e a prazo. A solicitação foi negada pelo BC, que alegou ausência de amparo legal para dar aval à medida. Em 18 de novembro, o Master foi liquidado.
RELAÇÃO – Vorcaro tinha relação próxima com Paulo Sérgio Neves e com o ex-chefe do departamento de supervisão bancária, Belline Santana – os dois foram afastados de suas funções em fevereiro por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça.
De acordo com a PF, a dupla atuava como “uma espécie de empregado/consultor” de Vorcaro, função incompatível para servidores públicos que eram responsáveis pela supervisão do sistema financeiro e deveriam manter uma postura imparcial.
Belline e Paulo Sérgio tinham um grupo de WhatsApp com Vorcaro para a discussão de estratégias relativas a temas de interesse do Banco Master, em que compartilhavam documentos, informações e pedidos de apoio.
ALERTA DO BC – Vorcaro teve acesso a procedimentos que tramitavam sob sigilo no Ministério Público Federal (MPF) apenas nove dias depois de o Banco Central alertar os investigadores sobre indícios de crimes contra o sistema financeiro nacional praticados pelo Banco Master.
Em 24 de julho de 2025, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como o “Sicário”, encaminhou para o celular do banqueiro três procedimentos sigilosos do MPF – inclusive o que apurava irregularidades na compra do Master pelo BRB e levaria Vorcaro a ser detido por policiais federais antes de embarcar num jatinho no aeroporto internacional de Guarulhos, em 17 de novembro de 2025.
Em 15 de julho de 2025, ou seja, nove dias antes de Sicário enviar os arquivos para Vorcaro em formato PDF, o Banco Central alertou o MPF que havia constatado a “cessão de créditos inexistentes ao BRB, adquiridos pelo Banco Master”, o que configuraria crime contra o sistema financeiro nacional.