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Momento expõe a dificuldade de governar a escalada
Marcelo Copelli
Revista Visão (Portugal)
O cessar-fogo entre Estados Unidos, Israel e Irã não configura um acordo de paz, mas a suspensão de uma trajetória de colisão. Não nasce de convergência política, e sim de um cálculo frio: todos reconheceram, simultaneamente, a proximidade de uma escalada que deixaria de ser controlável. Trata-se, portanto, de um recuo — não de uma solução.
A sequência que conduziu a esse desfecho expôs uma falha crítica na arquitetura de segurança regional. A lógica da dissuasão mútua, durante décadas eficaz como mecanismo de contenção indireta, entrou em sobrecarga à medida que ações militares limitadas, respostas assimétricas e retórica maximalista passaram a coexistir sem um código estável de interpretação. Como observou a Reuters, o episódio foi percebido como “um passo atrás do abismo” — expressão menos diplomática do que reveladora.
AMEAÇA – O ponto de inflexão não foi ideológico nem estritamente militar, mas sistêmico. A ameaça de disrupção prolongada no Estreito de Ormuz transformou uma crise regional em variável global e deslocou o eixo decisório: a tensão deixou de ser orientada apenas por objetivos de poder e passou a ser condicionada por limites econômicos. A interdependência energética atua, nesse contexto, como um freio externo às decisões militares — sem, contudo, resolver a instabilidade, apenas adiá-la.
Cada ator busca agora afirmar uma narrativa de controle. Washington apresenta o recuo como prova de eficácia dissuasória; Teerã projeta resiliência e capacidade de negociação; Tel Aviv preserva sua doutrina de liberdade operacional, recusando limitações estruturais. Essa multiplicidade de versões, porém, não altera o essencial: nenhum dos envolvidos atingiu seus objetivos centrais — e nenhum demonstra disposição para revê-los.
Há, ainda assim, uma assimetria relevante. Os Estados Unidos exibem crescente incoerência na condução do conflito, alternando entre escalada e moderação sem consolidar nenhuma das duas; Israel atua em um registro cada vez mais pós-diplomático, no qual a ação precede a legitimação; já o Irã, mesmo sob pressão, alcança aquilo que historicamente busca — não uma vitória formal, mas algo potencialmente mais decisivo: tempo político, sem ser forçado a uma concessão estrutural.
SEM SOLUÇÃO – O núcleo do problema permanece intocado. A suspensão das hostilidades não alcança as causas profundas da crise, entre as quais se destaca o programa nuclear iraniano — simultaneamente questão técnica e instrumento de projeção de poder. Israel mantém uma lógica de antecipação permanente, baseada na premissa de risco existencial, enquanto os Estados Unidos seguem oscilando entre demonstrações de força e ajustes táticos, contribuindo mais para a incerteza do que para a previsibilidade.
O arranjo em vigor ignora, além disso, a dimensão multipolar do conflito. Milícias alinhadas ao Irã, atores não estatais e frentes paralelas permanecem fora de qualquer enquadramento, o que significa que o mecanismo alcança apenas parte do sistema. E sistemas parcialmente condicionados tendem, por definição, à instabilidade — sobretudo quando vazios operacionais são rapidamente ocupados por novos focos de tensão.
A ausência de confiança agrava esse cenário. O histórico de compromissos fracassados entre Estados Unidos e Irã constitui um fator estrutural que limita tanto a credibilidade política quanto a eficácia operacional de qualquer mecanismo de verificação. O resultado é um padrão recorrente: entendimentos temporários, descumprimentos graduais e retorno à escalada.
REFLEXOS – O impacto imediato — em especial a estabilização momentânea dos mercados energéticos — não deve ser confundido com normalização. Trata-se, antes, de uma reação ao alívio do risco, que evidencia a vulnerabilidade do sistema internacional a choques regionais e revela mais sobre a degradação da ordem global do que sobre a eficácia do acordo.
Este momento expõe a dificuldade crescente de governar a escalada. A dinâmica recente não decorreu de uma decisão isolada, mas da acumulação de movimentos táticos que ultrapassaram os mecanismos tradicionais de contenção. O recuo surge, assim, como tentativa de recuperar margem de manobra em um cenário que começou a escapar ao controle de seus próprios arquitetos.
A relevância desse interlúdio dependerá do que vier a seguir. Uma pausa nas hostilidades só ganha densidade política quando inserida em um processo consistente — o que exigiria garantias de segurança verificáveis, inclusão de atores indiretos e redefinição clara de linhas vermelhas. Nada disso, por ora, está assegurado. Sem essas condições, o arranjo se reduz a uma pausa operacional.
LIMITES – Ainda assim, o recuo simultâneo indica a existência de consciência dos limites. Esse reconhecimento pode abrir caminho para um enquadramento mais estável ou, alternativamente, configurar apenas um intervalo antes de uma nova escalada. Tudo dependerá da capacidade de transformar contenção circunstancial em orientação duradoura — algo que tem sido reiteradamente adiado.
No Oriente Médio, a experiência recente não favorece o otimismo. Pausas temporárias, desprovidas de compromissos estruturais, tendem a reorganizar o conflito em vez de resolvê-lo, criando uma ilusão de controle enquanto permitem a recomposição de capacidades e o reposicionamento dos atores.
O equilíbrio atual é, portanto, ilusório. Evitou-se uma guerra aberta de grande escala, mas não se estabeleceu qualquer base para uma paz duradoura. O sistema permanece sob tensão, com incentivos à confrontação intactos.
PAUSA FUNCIONAL – O que hoje se apresenta como contenção pode, em pouco tempo, revelar-se apenas uma pausa funcional para reconfigurar posições, ajustar narrativas e testar novos limites. Se nada mudar — e, até agora, nada estrutural mudou —, este episódio dificilmente será lembrado como um momento de lucidez, mas como mais uma evidência de que os principais atores perderam, ao mesmo tempo, a capacidade de impor ordem e a disposição para redesenhar o conflito.
No Oriente Médio, a repetição de impasses políticos tem servido mais para reorganizar o conflito do que para superá-lo. Em vez de abrir espaço para soluções consistentes, esses ciclos tendem a redistribuir tensões, prolongar disputas e ajustar os termos da confrontação — raramente alterando sua lógica de fundo.