sábado, março 28, 2026

Carla Zambelli e o limite das manobras institucionais


Em maio em 2025, Zambelli foi condenada pelo STF

Pedro do Coutto

A trajetória recente de Carla Zambelli oferece um retrato emblemático de como estratégias políticas que tensionam instituições podem produzir efeitos exatamente opostos aos pretendidos. Ao tentar deslocar o eixo de responsabilização e, ao mesmo tempo, fragilizar a credibilidade de órgãos de controle, a ex-deputada acabou consolidando sua própria derrocada política e jurídica. O episódio, mais do que um caso individual, lança luz sobre os limites — cada vez mais evidentes — das manobras que buscam instrumentalizar o sistema de Justiça.

A tentativa de acionar o Conselho Nacional de Justiça em uma estratégia que, na prática, buscaria constranger o Supremo Tribunal Federal e atingir diretamente o ministro Alexandre de Moraes revelou-se não apenas juridicamente frágil, mas politicamente contraproducente.

COLISÃO – Ao sugerir um cenário em que o magistrado figuraria como uma espécie de “acusador de si mesmo”, a narrativa colidiu com princípios elementares do devido processo legal e da separação de funções no sistema de Justiça — pilares que não se flexibilizam ao sabor de conveniências circunstanciais.

O desfecho foi contundente. A perda do mandato e a imposição de pena privativa de liberdade não apenas encerram um ciclo político, mas também sinalizam um endurecimento institucional diante de práticas que buscam corroer a integridade das investigações.

Não se trata de um movimento isolado. Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a um reposicionamento das instituições de controle e do próprio Judiciário no enfrentamento de condutas que atentam contra a lisura do processo democrático e a confiabilidade das estruturas estatais.

FRAUDE – O episódio ganha contornos ainda mais graves quando se considera a tentativa de recorrer a expedientes técnicos para dar aparência de legitimidade a uma prática ilícita. A menção ao envolvimento de um suposto especialista em fraudes, levado a interlocução em ambiente de alta relevância política — com a presença do então presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto — reforça a percepção de que houve uma escalada deliberada na busca por soluções fora dos limites legais. Quando a técnica é mobilizada não para esclarecer, mas para distorcer, o resultado tende a ser devastador.

Mais do que a queda de uma figura política, o caso expõe um padrão: a tentativa de transformar acusações em instrumentos de contra-ataque institucional. Trata-se de uma lógica que inverte a ordem natural do Estado de Direito, substituindo a defesa nos autos por movimentos paralelos que buscam deslegitimar os próprios julgadores. Essa estratégia, no entanto, encontra barreiras cada vez mais sólidas em instituições que, pressionadas por crises recentes, passaram a reagir com maior assertividade.

MANIPULAÇÃO – Há, nesse contexto, uma lição mais ampla. O sistema democrático comporta tensão, crítica e até enfrentamento — mas não tolera a manipulação de seus mecanismos essenciais. Quando atores políticos cruzam essa linha, o custo tende a ser elevado, não apenas em termos individuais, mas também em reputação, legado e capacidade de reinserção no debate público.

O caso de Zambelli, portanto, não deve ser lido apenas como um episódio de responsabilização pessoal. Ele marca um ponto de inflexão: o momento em que o uso instrumental das instituições deixa de ser uma aposta de risco calculado e passa a ser um caminho quase certo para o isolamento político e a sanção jurídica. Em um ambiente institucional mais vigilante, a margem para esse tipo de manobra simplesmente encolheu — e tende a continuar encolhendo.