Apreensão de fuzis dobrou entre 2022 e 2023 — Foto: SSP-BA
Por José Montalvão
A violência no Brasil não é um fenômeno isolado, regional ou episódico. Ela é estrutural, histórica e multifacetada. A afirmação de que a violência não é privilégio da Bahia, mas um desafio nacional e complexo, encontra respaldo nos dados e na realidade social do país. Ainda que o estado da Bahia tenha ocupado posições alarmantes nos rankings recentes de mortes violentas, o problema ultrapassa fronteiras estaduais e revela fragilidades profundas da sociedade brasileira.
Um retrato nacional preocupante
O Brasil convive há décadas com taxas elevadas de homicídios. Embora o Atlas da Violência 2025 indique uma redução nacional de aproximadamente 11% nas mortes violentas em 2024 — sendo o quinto ano consecutivo de queda — os números ainda permanecem elevados quando comparados a padrões internacionais.
A queda nacional, embora relevante, não significa solução estrutural. Em muitos estados, a redução está ligada a fatores conjunturais, como rearranjos entre facções criminosas ou mudanças temporárias nas dinâmicas do tráfico, e não necessariamente à consolidação de políticas públicas duradouras.
O caso da Bahia no contexto brasileiro
A Bahia, desde 2020, passou a figurar no topo do ranking nacional em números absolutos de homicídios, superando estados historicamente associados à violência urbana, como Rio de Janeiro e São Paulo. Em 2024, o estado registrou mais de 6 mil Mortes Violentas Intencionais (MVIs), número extremamente elevado.
É verdade que o governo estadual aponta reduções em determinados indicadores e investe em tecnologia, como câmeras corporais nas fardas policiais, além de treinamentos para reduzir a letalidade policial. Contudo, os dados mostram que o problema permanece grave, especialmente pela concentração de municípios baianos entre os mais violentos do país.
Ainda assim, é essencial evitar simplificações. A Bahia não é uma “ilha de violência”, mas parte de um fenômeno nacional que atinge com intensidade particular regiões marcadas por desigualdades históricas e expansão do crime organizado, especialmente no Nordeste.
As raízes profundas da violência
A dificuldade em combater a violência decorre da combinação de múltiplos fatores.
1. Crime organizado e disputa territorial
O tráfico de drogas e armas estrutura grande parte da violência letal no Brasil. A disputa entre facções por controle de territórios urbanos e rotas de distribuição cria ciclos de confronto constantes. Em muitos estados, inclusive na Bahia, essa disputa se interiorizou, deixando de ser um fenômeno restrito às capitais.
Além disso, o crime organizado tornou-se mais sofisticado, com redes interestaduais e até internacionais, o que exige inteligência integrada e cooperação federativa — algo que nem sempre ocorre de forma eficiente.
2. Desigualdade social e exclusão
A violência também é fruto da desigualdade. Regiões com baixo acesso a educação de qualidade, mercado de trabalho formal e políticas sociais consistentes tornam-se terreno fértil para o recrutamento de jovens pelo tráfico.
Não se trata de justificar o crime, mas de compreender que a ausência do Estado em áreas vulneráveis abre espaço para que organizações criminosas ocupem esse vazio, oferecendo renda, pertencimento e poder simbólico a adolescentes e jovens sem perspectiva.
3. Letalidade policial e crise de confiança
Outro fator delicado é a letalidade policial. A Bahia registrou, nos últimos anos, números expressivos de mortes decorrentes de intervenções policiais. Esse dado gera debates intensos sobre o modelo de policiamento adotado.
Quando a atuação policial resulta em elevado número de mortes, surgem questionamentos sobre preparo, protocolos, controle externo e políticas de prevenção. Ao mesmo tempo, os próprios policiais operam sob alto risco e forte pressão.
O desafio está em equilibrar firmeza no combate ao crime com respeito aos direitos fundamentais, fortalecendo a legitimidade das instituições de segurança pública.
4. Fragilidade institucional
A violência prospera onde instituições são frágeis. Corrupção, lentidão judicial, superlotação carcerária e ausência de políticas de ressocialização completam o ciclo. O sistema prisional, muitas vezes, torna-se espaço de fortalecimento das facções, e não de recuperação.
Sem integração entre União, estados e municípios, as ações tornam-se fragmentadas. Segurança pública exige inteligência, investimento social, modernização tecnológica e governança eficiente — não apenas operações pontuais.
Um desafio estrutural, não eleitoral
A violência não pode ser tratada como arma política circunstancial. Reduções ou aumentos pontuais não representam vitória definitiva nem fracasso absoluto de um único governo. Trata-se de um problema acumulado por décadas.
É necessário reconhecer que:
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Segurança pública exige continuidade de políticas.
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Repressão isolada não resolve sem prevenção.
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Investimento em educação, emprego e urbanização é parte da política de segurança.
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Transparência e controle institucional são fundamentais.
Caminhos possíveis
Algumas medidas mostram potencial:
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Ampliação do uso de tecnologia e inteligência policial.
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Integração de bancos de dados nacionais.
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Políticas sociais focadas na juventude em áreas vulneráveis.
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Reformas no sistema prisional.
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Formação continuada e valorização das forças de segurança.
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Monitoramento da letalidade e adoção de protocolos claros de uso da força.
Mas nenhuma dessas medidas produz resultado imediato. Segurança pública é construção de longo prazo.
Conclusão
A violência na Bahia é grave, mas não isolada. Ela reflete um cenário nacional complexo, marcado por desigualdade, crime organizado, fragilidade institucional e desafios históricos na construção de políticas públicas consistentes.
A queda nacional recente é um sinal positivo, mas insuficiente para acomodação. A Bahia, assim como outros estados, enfrenta um problema estrutural que exige responsabilidade compartilhada entre governos, instituições e sociedade.
Combater a violência não é apenas prender mais ou agir com mais força. É reconstruir o tecido social, fortalecer instituições e oferecer alternativas reais para que o crime deixe de ser, para muitos jovens, a única perspectiva visível.
* José Montalvão - Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, pós-graduação em Jornalismo proprietário do Blog DedeMontalvão, matrícula ABI C-002025
