terça-feira, fevereiro 03, 2026

Uma nova realidade! Agora, o imposto pesa mais no carrinho do mercado do que na renda


Charge do Jota A. (Portal O Dia)

Pedro do Coutto

Os dados da arrecadação federal de 2025, revelados em reportagem de O Globo com base em números oficiais da Receita Federal, expõem uma contradição central do debate tributário brasileiro. Enquanto o discurso político insiste na promessa de tributar os mais ricos e tornar o sistema mais justo, a realidade dos números mostra outra direção: a arrecadação sobre a renda perdeu espaço, e os impostos sobre o consumo — aqueles que recaem indistintamente sobre todos — ganharam protagonismo.

Ao final de 2025, os tributos incidentes sobre a renda representavam cerca de 40% da arrecadação federal, abaixo dos 42% registrados em 2022. No mesmo intervalo, os impostos sobre o consumo ampliaram sua participação no total arrecadado. Não se trata de uma queda absoluta da arrecadação sobre a renda, mas de uma perda relativa de espaço dentro de um bolo que cresceu. O problema, portanto, não está apenas no volume arrecadado, mas em quem, proporcionalmente, está pagando a conta do crescimento fiscal.

SISTEMA REGRESSIVO – Esse movimento é especialmente sensível porque ocorre em um país cujo sistema tributário é reconhecidamente regressivo. Impostos sobre consumo incidem da mesma forma sobre ricos e pobres, mas pesam muito mais sobre os assalariados e as famílias de renda média e baixa, que comprometem parcela maior de seus rendimentos com gastos essenciais. Quando a arrecadação cresce mais por essa via, o efeito prático é a transferência silenciosa do esforço fiscal para quem tem menos margem de escolha: quem vive do salário e consome quase tudo o que ganha.

O governo Lula assumiu com a bandeira da progressividade, prometendo corrigir distorções históricas e fazer com que os mais ricos contribuíssem mais. Houve avanços pontuais, como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e a tentativa de criar mecanismos de tributação mínima para altas rendas. Ainda assim, os números de 2025 indicam que essas iniciativas não foram suficientes para alterar a estrutura da arrecadação, que segue dependente de tributos indiretos.

FATORES TÉCNICOS – Parte dessa dinâmica se explica por fatores técnicos — como o fim de desonerações, ajustes legais e maior eficiência na cobrança —, mas outra parte é claramente política. Tributar renda elevada, patrimônio e ganhos financeiros exige enfrentamento com interesses organizados e resistência no Congresso. Tributar consumo, ao contrário, é mais simples, menos visível e socialmente diluído, ainda que mais injusto.

O resultado é um paradoxo incômodo: fala-se em justiça tributária, mas consolida-se um modelo que continua pressionando o consumo, justamente em um país marcado pela desigualdade. A arrecadação cresce, as contas públicas respiram, mas o peso recai, mais uma vez, sobre a base da pirâmide.

Os dados de 2025 não encerram o debate — ao contrário, reforçam sua urgência. Se a promessa de tributar os mais ricos não se traduz em mudança concreta na composição da arrecadação, o risco é transformar a justiça fiscal em retórica, enquanto o imposto segue embutido no preço do arroz, da energia e do transporte. E, no fim, é sempre o assalariado quem percebe primeiro.