quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Ruy Castro e as trincheiras tropicais: o Brasil esquecido que a Segunda Guerra revelou


Ruy Castro levanta uma história nunca antes contada

Pedro do Coutto

Comecei a ler a mais nova obra de Ruy Castro, “Trincheira tropical: A Segunda Guerra Mundial no Rio”, focalizando como estava a opinião pública no Rio de Janeiro em face da Segunda Guerra Mundial. O livro, edição da Companhia das Letras, é um registro muito importante marcado pelos fatos e conceitos que o autor vai singularmente elencando, apontando uma realidade que hoje se redescobre sob a pena e o pensamento de Ruy Castro.

A Segunda Guerra Mundial ainda é, no imaginário brasileiro, um capítulo frequentemente reduzido a notas de rodapé, apesar de sua profunda influência na formação do Estado moderno e na redefinição do papel do país no cenário internacional. Nesse contexto, obras como “Trincheira Tropical: A Segunda Guerra Mundial no Rio” cumprem uma função essencial: resgatar a dimensão histórica e política de um período em que o Brasil precisou decidir entre o isolamento continental e o engajamento efetivo em um conflito global que redefiniria o século XX.

Ao fazê-lo, Ruy Castro contribui para iluminar uma geração que saiu das sombras da história oficial para ocupar o lugar que lhe cabe na memória nacional.

CRIAÇÃO DA FEB – A participação brasileira no conflito foi decisiva para afirmar a presença internacional do país e consolidar sua aproximação com os Estados Unidos no contexto da política hemisférica de guerra.

A criação da Força Expedicionária Brasileira, com cerca de 25 mil soldados enviados à Itália entre 1944 e 1945, simbolizou não apenas um gesto militar, mas uma decisão estratégica de reposicionamento geopolítico do país em meio à disputa global entre as potências do Eixo e os Aliados.

As batalhas em Monte Castelo, Montese e Collecchio demonstraram a capacidade de combate das tropas brasileiras e contribuíram diretamente para a derrota das forças alemãs na Linha Gótica, ao custo de centenas de vidas nacionais.

MODERNIZAÇÃO – O livro dialoga com um momento histórico em que a guerra externa se entrelaçou com transformações internas profundas. O esforço de mobilização militar, industrial e diplomática acelerou a modernização do Estado brasileiro, impulsionou a infraestrutura logística e fortaleceu a centralidade do poder federal.

A guerra não foi apenas travada nos campos europeus: ela também se desenrolou nos estaleiros, nos portos, nas bases aéreas do Nordeste e na política externa que buscava equilibrar interesses econômicos, pressões norte-americanas e a necessidade de afirmação soberana.

Trata-se de um período em que a política internacional penetrou o cotidiano nacional, redefinindo prioridades estratégicas e inaugurando uma nova etapa de projeção do Brasil no mundo.

SERVIÇO PÚBLICO – Ao valorizar esses episódios com rigor histórico e sensibilidade narrativa, a obra presta um serviço público à memória nacional. Em tempos de disputas simbólicas sobre o passado e de revisões apressadas da história política brasileira, recuperar a complexidade da participação do país na Segunda Guerra Mundial é também um gesto de responsabilidade cívica.

Ruy Castro acerta ao apresentar a guerra não como um episódio distante, mas como uma trincheira tropical que moldou decisões, identidades e projetos de nação que ainda ecoam no presente.

Sem dúvida, mais uma importante contribuição que assinala o quão Ruy Castro é um escritor fantástico.