
Charge do Gilmar Fraga (gauchazh.clicrbs.com.br)
Johanns Eller
Rafael Moraes Moura
O Globo
A CPI do INSS retomará os trabalhos após o recesso parlamentar no próximo dia 5 com o futuro em xeque. A oposição ao governo Lula trabalha para prorrogar os trabalhos da comissão por mais dois meses a partir do fim de março, quando completa-se o prazo regimental de 120 dias, com o objetivo de explorar o possível envolvimento de Fábio Lula da Silva, filho do presidente da República e conhecido como Lulinha, no esquema. Mas a estratégia deve esbarrar na resistência do dirigente do Congresso, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Como a CPI é mista, composta por 16 deputados e 16 senadores, cabe a Alcolumbre a decisão final sobre a proposta de estendê-la, que também desagrada o Palácio do Planalto. Segundo três interlocutores do presidente do Senado Federal ouvidos sob reserva pela equipe da coluna, ele não pretende prorrogar o colegiado. Dois integrantes da oposição também admitiram que a tendência hoje é o enterro da comissão.
PALANQUE ELEITORAL – “A CPI vai virar palanque eleitoral, se for prorrogada. Todo mundo acha que ela já deu”, disse ao blog um aliado de Alcolumbre que acompanha de perto as articulações nos bastidores para encerrá-la. Ainda assim, a pressão para investigar Lulinha ganhou força depois que a Polícia Federal (PF) comunicou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que investiga uma possível atuação do filho do presidente como “sócio oculto” do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, tido como o pivô do esquema pelos investigadores.
A comissão já havia votado em 4 de dezembro pela rejeição de um requerimento de convocação do filho de Lula apresentado por Marcel Van Hattem (Novo -RS). Mas há outros três pedidos não apreciados e que foram submetidos às vésperas do recesso. Um deles é do relator, Alfredo Gaspar (União Brasil-AL). Como publicamos no mês passado, a CPI já é recordista em requerimentos apresentados entre as comissões parlamentares de inquérito de maior repercussão nas últimas décadas.
No cálculo da oposição, a extensão da vigência da CPI por mais dois meses teria o potencial de desgastar o presidente às vésperas da eleição presidencial, em outubro. “O que preocupa o governo é o INSS, que pode implodir a reeleição do Lula”, afirmou uma fonte a par das discussões.
RITMO INTENSO – Alguns integrantes do colegiado reconhecem, porém, que o próprio calendário eleitoral pesa contra a prorrogação. Isso porque o ritmo intenso da CPI leva os deputados e senadores a permanecerem mais tempo em Brasília no momento em que os parlamentares costumam retornar às suas bases nos estados em busca da reeleição.
Ainda segundo estes congressistas, o adiamento favoreceria quem tem mais exposição no dia a dia da comissão: o presidente, senador Carlos Viana (Podemos-MG), e o relator, Alfredo Gaspar.
“Viana se promove com a nossa imagem. Ele está usando e abusando da CPI para se promover no seu programa de TV [Alterosa Urgente, exibido pela filial do SBT em Minas]”, queixou-se um parlamentar com bom trânsito entre bolsonaristas e lulistas. “Não quero ser usado para isso.” Viana enfrenta uma disputa congestionada em Minas Gerais, enquanto Gaspar deve disputar o Senado em Alagoas em uma corrida que já conta com duas das principais lideranças do estado, Renan Calheiros (MDB) e Arthur Lira (PP).
RAZÕES DE ALCOLUMBRE – Parte do ceticismo em relação à possibilidade de Davi Alcolumbre estender o calendário da CPI se deve ao alinhamento com o governo. O senador hoje é o principal aliado de Lula no União Brasil e apadrinha indicações na Esplanada e em diferentes agências reguladoras.
Alcolumbre se reaproximou do petista após rusgas públicas com o presidente e com o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), em razão do aliado Rodrigo Pacheco (PSD-MG) ter sido preterido pelo advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga de Luís Roberto Barroso no STF. Mas, além do receio do Planalto com a possibilidade de Lulinha ser convocado na CPI e ter os sigilos quebrados, o presidente do Congresso também tem suas razões para trabalhar contra a prorrogação da comissão.
Em novembro, Alcolumbre atuou junto da base do governo para enterrar requerimentos pela quebra de sigilo bancário e fiscal de Paulo Boudens, que foi seu chefe de gabinete e entrou na mira da CPI após um relatório do Coaf apontar que ele recebeu R$ 3 milhões de uma empresa que seria vinculada ao Careca do INSS, como é conhecido o Antônio Carlos Camilo Antunes, apontado como pivô do esquema de fraudes.
ARTICULAÇÃO – Em troca dos votos governistas para blindar Boudens, o parlamentar do União Brasil articulou votos para que derrubaram requerimentos que previam a convocação de José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão de Lula e vice-presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi), uma das entidades investigadas pelos descontos indevidos em aposentadorias.
A estratégia, que envolveu a convocação de suplentes e a mudança de posição de senadores próximos a Alcolumbre, rendeu acusações por parte da oposição de que o governo e o presidente do Senado agiam para “blindar” aliados. Outro aliado próximo do político do União Brasil está no centro das investigações da Polícia Federal. O senador Weverton Rocha (PDT-MA), alvo de uma operação de busca e apreensão em dezembro, é apontado pelos investigadores como “sustentáculo político” do esquema de descontos ilegais nas aposentadorias.
A PF chegou a pedir a prisão do parlamentar, mas a Procuradoria-Geral da República (PGR) opinou contra e o relator do caso no Supremo, ministro André Mendonça, acatou a posição do Ministério Público Federal.
CASO LULINHA – A possibilidade do filho do presidente Lula ser o “sócio oculto” do Careca do INSS passou a ser investigada pela PF a partir de diálogos obtidos pelos investigadores entre o pivô do escândalo e uma de suas sócias, a empresária Roberta Luchsinger, que é amiga próxima de Lulinha e da mulher dele, Renata Abreu Moreira, a quem ela classifica como “irmã de alma”. As mensagens foram destacadas na decisão de André Mendonça que autorizou a operação da PF contra Weverton Rocha e outros alvos em dezembro passado.
Na conversa, Roberta manifesta temor sobre a apreensão de um envelope com o nome de um “amigo” de ambos durante a megaoperação da PF que desbaratou o esquema dos descontos fraudulentos em aposentadorias em abril de 2025.
De acordo com a Polícia Federal, quase uma semana depois dessa conversa, em 5 de maio, a empresária amiga de Lulinha manda uma nova mensagem para o Careca do INSS, dessa vez na forma de áudio, no qual aparentemente busca tranquilizá-lo. “Na época do Fábio falaram de Friboi, de um monte de coisa o (sic) maior… igual agora com você”, diz o trecho reproduzido pela Polícia Federal.
MENÇÃO – Nesse trecho, Roberta faz menção direta aos boatos que viralizaram na internet no princípio da Operação Lava-Jato, de que Fábio Luís Lula da Silva seria sócio oculto da Friboi, marca da JBS – a empresa dos irmãos Batista que se expandiu de forma exponencial nos governos petistas sob a política dos campeões nacionais do BNDES e se tornou alvo da operação naquela época.
Na representação enviada ao gabinete de Mendonça no Supremo, a PF destaca justamente a possibilidade de um “vínculo indireto” entre o Careca do INSS e Lulinha a partir da relação entre o pivô do esquema e a empresária Roberta Luchsinger. A corporação, porém, ressalta que não há “indícios” de que filho de Lula “esteja diretamente envolvido nas condutas relativas aos descontos associativos fraudulentos”.
TRANSPARÊNCIA – “A fim de dar transparência à investigação para todos os atores da persecução penal, a partir da relação estabelecida entre Antônio Camilo e Roberta Luchsinger, vislumbra-se a possibilidade de vínculo indireto entre Antônio Camilo e terceiro que, em tese, poderia atuar como sócio oculto, por intermédio da mencionada Roberta, que funcionaria como elo entre ambos. Tal pessoa pode ser Fábio Lula da Silva”, alerta a PF no documento.
Investigadores da Polícia Federal também identificaram outro diálogo que parece fazer referência ao filho do presidente Lula. Na conversa, ocorrida antes da deflagração da operação de abril, o Careca do INSS orienta um sócio também investigado no inquérito, Milton Salvador de Almeida Jr., a fazer um pagamento de R$ 300 mil. Milton então pergunta quem seria o destinatário da cifra, ao que o chefe do esquema responde: “o filho do rapaz”. Na sequência, seu sócio enviou o comprovante do repasse para uma empresa de Roberta Luchsinger, a RL Consultoria e Intermediações.