
Charge do Cláudio (Folha)
Eliane Cantanhêde
Estadão
Deu a louca nas instituições e o ministro Flávio Dino, do Supremo, perdeu a paciência e decidiu dar um basta, suspendendo o que jamais deveria ter começado, se naturalizado e muito menos se tornado regra: o aumento de remuneração − portanto, de gastos − dissimulado como “indenização” e apelidado de “penduricalho”.
É indecente, ilegal, mas, em vez de ser proibido e contido, vem se multiplicando ao longo de anos, de décadas, sob o pretexto do que Dino ironizou na sua decisão: “isonomia”. Se a Câmara tem, o Senado também quer, o Executivo não fica atrás e o Judiciário não é bobo nem nada. Lembram do Stanislaw Ponte Preta? “Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”
PENDURICALHOS – Depois de pegar à unha o combate às emendas parlamentares fora de controle, Dino suspende agora “o império dos penduricalhos” nos Três Poderes e, além da esfera federal, inclui Estados e municípios, para tentar manter de pé a norma da Constituição que estabelece um teto de R$ 46,3 mil para o funcionalismo. A suspensão atinge os adicionais fora da lei (mas em prática), não os admitidos legalmente.
A decisão ocorre na primeira semana de trabalhos do ano do Judiciário e do Legislativo e dois dias após o Congresso abrir 2026 oferecendo um presente de grego à sociedade brasileira: um aumentaço e “gratificações” para servidores da Câmara e do Senado, que podem ganhar até R$ 77 mil por mês – muito além do teto constitucional – e um dia de folga a cada três trabalhados, sem contar sábados, domingos e feriados. É ou não uma pouca vergonha?
O Novo foi o único partido a votar 100% contra e a deputada Adriana Ventura (SP), professora da FGV, com tese de doutorado sobre Ética e Integridade, gritou no plenário para o presidente da Câmara, Hugo Motta: “Esse projeto acabou de subir, a gente nem consegue ler o que vai ser votado”. E tascou: “Eu gostaria que aqui voltasse a ser uma casa da democracia. O Poder Legislativo não pode ser reduzido a nada”.
CASO MASTER – A crise vai além. O Executivo vira comitê de campanha de um presidente atrás do outro e o Judiciário, exposto neste momento pelo escândalo Master, tem um longo histórico de jatinhos, farras e gastos nada republicanos, que todo mundo conhece, mas ninguém faz nada.
São jatinhos, festas, a multiplicação de processos do Supremo e de tribunais superiores em mãos de mulheres e filhos e, pelo País afora, juízes e juízas juntam um penduricalho daqui, outro dali, e chegam a receber R$ 400 mil, R$ 600 mil, R$ 1 milhão, num único mês. Sem contar o Vale Peru no Natal, o Vale Academia … No fundo, um vale-tudo.