
PSD filiou 45 prefeitos e vices do partido de Aécio
Samuel Lima
O Globo
O anúncio, na semana passada, da filiação ao PSD de seis dos oito deputados estaduais do PSDB em São Paulo é o mais novo capítulo do avanço do partido de Gilberto Kassab, secretário de Tarcísio de Freitas (Republicanos), sobre o espólio tucano. A sigla do ex-governador Mário Covas e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tem perdido espaço em seu estado de origem e passou a ser “absorvida” pelo PSD, o que gerou uma reação da cúpula do partido.
Além de eleger mais prefeitos em São Paulo, a sigla de Kassab incorporou parte dos tucanos que concorreram no pleito de 2024. Na ocasião, o PSD conquistou 207 prefeituras paulistas, contra 21 do PSDB — quatro anos antes, os tucanos haviam alcançado 173 cidades. Um levantamento do O Globo aponta que 45 dos 83 prefeitos e vice-prefeitos do PSDB que tentaram a reeleição no pleito passado fizeram o mesmo que os deputados: fecharam com Kassab. A maioria está em cidades de médio e pequeno porte.
SEM CONTROLE – O PSD foi a sigla que mais atraiu tucanos. Em seguida, está o Republicanos, legenda do atual governador, que levou 11, incluindo o prefeito de Santos, Rogério Santos. PL, União Brasil, PP e MDB filiaram os demais. Apenas dez se mantiveram no PSDB. Nesse meio tempo, o partido, hoje comandado nacionalmente pelo deputado federal Aécio Neves (MG), perdeu o controle do governo do estado após ficar 28 anos à frente de São Paulo, com a vitória de Tarcísio sobre Rodrigo Garcia, vice de João Doria — governador que implodiu relações com integrantes da velha guarda do PSDB e mediu forças com Jair Bolsonaro na pandemia.
Após a última ofensiva de Kassab, Aécio reagiu afirmando que o cacique do PSD funciona como “fundos abutres da economia”, pois “ataca os ativos da empresa para depois comprar na baixa”. “O PSDB não está à venda. E diferentemente do seu partido (PSD), que tem inclusive quadros que respeito, o PSDB se prepara para apresentar um projeto de Brasil”, escreveu Aécio em nota.
Os motivos para as baixas no PSDB são conhecidos no mundo político. O PSDB teve sucessivas brigas de comando e uma grave crise de identidade após perder o protagonismo nos embates com o PT, em meio à ascensão do bolsonarismo. Em 2022, não teve sequer candidato a presidente: apoiou Simone Tebet, do MDB, atual ministra do governo Lula.
FUNDO PARTIDÁRIO – Há preocupação ainda em termos de financiamento e estrutura de campanha: foi apenas o 10º partido na lista de maiores beneficiários da verba pública eleitoral, que leva em conta o tamanho da bancada federal. Uma nova decepção nas urnas, em outubro, pode significar a perda do acesso ao fundo partidário até 2030.
Entre os antigos gestores das maiores prefeituras tucanas, a maioria abandonou o barco. Um caso emblemático é o do ex-prefeito de São José dos Campos Felício Ramuth, que se tornou vice de Tarcísio. Duarte Nogueira, de Ribeirão Preto, também foi para o PSD, enquanto Orlando Morando, de São Bernardo do Campo, pediu desfiliação e ocupa a Secretaria de Segurança Urbana na gestão de Ricardo Nunes (MDB), na capital.
Entre os que se mantiveram no partido está o ex-prefeito de Santo André, Paulo Serra, agora presidente estadual do PSDB. Ele ensaia uma candidatura ao governo. Perguntado sobre a possibilidade de Kassab ter absorvido, de certa forma, o que era o PSDB, ele foi taxativo: “Não se absorve um conceito, ainda mais sendo base de apoio do PT no plano nacional”.
PREFEITURAS – O PSD comanda três ministérios. Mesmo com viés centralizador nas fileiras internas e uma estrutura relativamente jovem, inaugurada em 2011, Kassab conseguiu fazer do PSD o partido que governa o maior número de prefeituras no país.
Em São Paulo, Kassab divide as atenções de dirigente partidário com o cargo de secretário de Governo, posto em que fica responsável pelo encaminhamento de convênios e parcerias com os gestores municipais. A função já rendeu reclamações de outros partidos pela suposta estratégia do cacique de cooptação de prefeitos em troca da liberação de verbas e outras benesses capazes de render votos. Ele sempre negou a prática.
O fato é que grande parte do resultado do PSD se deve ao seu empenho em trazer para o partido nomes consagrados da política e com mandato, o que desagrada outros partidos e ajuda a engrossar a militância com dezenas de outros aliados regionais. Apenas neste ano, Kassab já atraiu os governadores de Goiás, Ronaldo Caiado, e de Rondônia, Marcos Rocha, ambos do União Brasil.