terça-feira, fevereiro 10, 2026

Jeremoabo: entre o discurso da crise e a cultura das festas

Jeremoabo: crise permanente ou felicidade coletiva?


Por José Montalvão

Jeremoabo vive uma situação que merece reflexão serena e honesta. De um lado, a oposição insiste em um discurso de cidade mergulhada no desemprego, em estradas precárias e em dificuldades estruturais. De outro, o que se vê, na prática, é uma agenda quase permanente de festas na zona urbana e eventos frequentes na zona rural, como cavalgadas animadas, com direito a comida e bebida, reunindo grande participação popular.

O bom senso costuma dizer que povo feliz é povo alegre. E, pelas manifestações públicas, Jeremoabo demonstra exatamente isso: participação, animação e presença maciça nos eventos. A Praça do Forró, na sede, virou ponto constante de confraternização. No interior, as cavalgadas movimentam comunidades semanalmente.

E há um detalhe importante: festa custa dinheiro. Exige estrutura, som, alimentação, organização. Quem não tem recursos não promove eventos dessa dimensão. E o mais curioso é que essas festividades não são exclusividade de um grupo político. Tanto situação quanto oposição participam, promovem ou apoiam. Enquanto o discurso é de crise, a prática revela intensa movimentação festiva.

Isso não significa negar os problemas reais que qualquer município enfrenta. Estradas precisam de manutenção. Emprego exige política pública consistente. A economia do interior sempre pede atenção. Mas é preciso coerência entre o que se diz e o que se faz.

É justamente nesse ponto que surge uma observação necessária — e até incômoda.

Os mesmos políticos que aparecem sorridentes nas festas, que sobem em palcos, que prestigiam cavalgadas e circulam entre aplausos, já fizeram — de forma concreta — algum gesto efetivo para ajudar a Casa dos Vicentinos? A instituição, que acolhe idosos e presta um serviço social essencial, sobrevive há anos com dificuldades, funcionando muitas vezes a trancos e barrancos, dependendo da solidariedade da comunidade.

Ali não há palco, nem som alto, nem multidão para fotografias. Há idosos que precisam de cuidado, alimentação, medicamentos e dignidade. Quantos dos que discursam sobre compromisso social já buscaram recursos, destinaram emendas, firmaram convênios ou assumiram responsabilidade permanente para garantir estabilidade à entidade?

É fácil estar onde há festa. Difícil é estar onde há necessidade silenciosa.

Jeremoabo não é apenas a cidade das críticas nem apenas a cidade das comemorações. É uma cidade que precisa transformar energia festiva em compromisso social real. Porque alegria momentânea não substitui política pública estruturada. E presença em eventos não substitui ação concreta.

Festa passa. A foto nas redes sociais desaparece com o tempo. Mas o apoio às instituições que cuidam dos mais vulneráveis — como a Casa dos Vicentinos — permanece como verdadeiro termômetro de responsabilidade pública.

Se há mobilização e recursos para entretenimento, que também haja sensibilidade, prioridade e ação para quem realmente precisa. Afinal, desenvolvimento de verdade não se mede apenas pelo volume do som na praça, mas pela capacidade de cuidar dos seus.

 José Montalvão -  Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública,  pós-graduação em Jornalismo proprietário do Blog DedeMontalvão, matrícula ABI C-002025