Publicado em 18 de fevereiro de 2026 por Tribuna da Internet

Jato comporta até 19 passageiros e tem grande autonomia
Rafael Moraes Moura
Johanns Eller
O Globo
A mais vistosa das aeronaves usadas antes da prisão pelo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, o Gulfstream G700, está à venda com desconto de mais de R$ 100 milhões. O jato, que comporta até 19 passageiros e tem autonomia para voos transcontinentais, foi comprado em junho passado por R$ 538 milhões e, desde janeiro, está sendo oferecido a um rol bastante restrito de clientes por US$ 80 milhões, o equivalente a R$ 415 milhões tendo como referência a cotação atual do câmbio.
Vorcaro teve os bens bloqueados por decisão da Justiça Federal de Brasília, mas o jato foi poupado das medidas cautelares até agora. Isso porque, pelo menos no papel, o grupo Prime You é o proprietário oficial. A empresa também é proprietária de outros bens usados por Vorcaro, como a como a mansão dele em Brasília.
SOCIEDADE – Até o início de setembro de 2025, Vorcaro foi dono da Prime You junto com Maurício Quadrado, que também foi seu sócio no Master. Segundo a companhia informou ao Valor Econômico, os dois venderam a parte deles para a própria empresa. E até 2023, o empresário Nelson Tanure, investigado pela Polícia Federal por suspeita de ser sócio oculto do Master, também era sócio da Prime You.
Embora Vorcaro afirme não ser mais dono do avião e a Prime You também informe que o banqueiro não é mais sócio da empresa, no restrito universo de potenciais compradores do jato, a venda tem sido descrita como uma forma de o banqueiro tentar fazer caixa para enfrentar os processos judiciais e compensar as perdas de recursos após a liquidação do Master.
BLOQUEIO DE BENS – Segundo essas fontes, o banqueiro teme que o avanço das investigações de uma fraude bilionária no Banco Master leve à ampliação do bloqueio de bens, atingindo inclusive os que não estão oficialmente no seu nome, como o jatinho. Por isso, quer se livrar deles o quanto antes.
A informação fornecida aos clientes da Prime You é de que o avião está estacionado na Europa e acumula dívidas de alguns milhões de dólares com manutenção, taxas aeroportuárias e despesas com funcionários
ÚLTIMO POUSO – Fabricado em 2024 nos Estados Unidos, o G700 estava a caminho da Europa levando a namorada de Vorcaro, a influenciadora Martha Graeff, na noite de 17 de novembro, quando ele foi preso pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos.
Naquela noite, o Gulfstream decolou de Fort Lauderdale, nos arredores de Miami, com Martha a bordo. Mas, pouco mais de duas horas depois, já na madrugada do dia 18 no horário de Brasília, fez uma mudança brusca de rota próximo às Bermudas e veio pousar no Brasil.
O último registro público do transponder do Gulfstream é de 30 de dezembro, quando o jato passou por um terminal privado do EuroAirport Basel-Mulhouse-Freiburg, situado na fronteira entre Suíça, França e Alemanha. Administrado pelos governos francês e suíço, o aeroporto é um dos principais HUBs da aviação executiva na Europa e fica nas cercanias de Basileia, um dos centros financeiros da Suíça.
PARAÍSO FISCAL – O aeroporto tem serviço 24 horas para aeronaves de luxo e a seção suíça garante diversas facilidades no acesso ao país, que é um dos maiores paraísos fiscais do mundo, incluindo isenção de taxas alfandegárias. Em 17 de dezembro, exatamente um mês após a primeira fase da Operação Compliance Zero da Polícia Federal e da liquidação extrajudicial do Master pelo Banco Central, a sociedade controlada pela Prime You registrou na Junta Comercial um documento autorizando a alienação da aeronave, comprada em junho de 2025 pela PS-MGG Administração por R$ 538 milhões.
O Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB) do Gulfstream G700 indica que a PS-MGG registrou a Prime como operadora do avião junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) logo após comprá-lo da empresa capixaba Comexport Trading Comércio Exterior, que se apresenta em seu site como líder em importações diretas no Brasil. O RAB não tem informação sobre um eventual contrato de alienação, o que pode indicar que o jato foi comprado à vista.
A ata protocolada na Junta Comercial não detalha quem é o novo dono da aeronave multimilionária. Mas informa que os acionistas da empresa autorizaram os diretores a concluir o alienamento do jatinho, descrito como “bem próprio da empresa”, a um “terceiro” de maneira “irrevogável, irretratável e sem ressalvas”.