
Sociólogo avalia que campo não tem narrativa própria
Eduardo Graça
O Globo
Em “Por que a esquerda morreu?”, recém-lançado pela Editora Civilização Brasileira, o sociólogo Jessé Souza, professor da Universidade Federal do ABC e autor de “O pobre de direita” e “A elite do atraso”, faz uma autópsia do campo progressista no Brasil.
No subtítulo da obra — “o que devemos fazer para ressuscitá-la” –, ele oferece sugestões para a reinvenção da esquerda, de olho tanto nas eleições de 2026 quanto em um futuro próximo, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estiver fora das urnas. Em entrevista ao GLOBO, ele avalia que um discurso voltado para justiça tributária e soberania nacional é uma possível fórmula para a reinvenção desse campo.
Você conta que escreveu o livro “desesperado”. Por quê?
Escrevi em total desespero, ao ver a maioria humilhada da população ainda comprando a narrativa da extrema direita. E na esquerda não há sequer a tentativa de se construir um imaginário social alternativo. O cenário após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva(PT) é de terra arrasada. A esquerda só será forte se elaborar uma narrativa que dê protagonismo aos explorados. Se tiver a ambição de pensar um país formado por cidadãos, e não pós-escravos comandados pelo projeto da elite paulista, que enfrenta a realidade do sufrágio universal. Sozinha, essa elite não elege nem um senador. Aplicou, com sucesso, estratégias para manipular o desejo dos pobres, que esmiucei em “O pobre de direita”. Agora busco entender por que a esquerda deixou de disputar este estrato, qual foi sua estupidez.
E qual foi?
O PT se conformou em ser o plano B da elite paulista, um docinho que se dá aos pobres para garantir a ordem social mínima. A elite paulista, a que de fato importa, tem projeto de poder americanizado, com defesa do empreendedorismo. Desde que conte com subsídios e vantagens públicas, pois enxerga o Estado como negócio. Dona simbólica do poder, controla a propagação das ideias e namora interesses de ocasião, dos Bolsonaro a Pablo Marçal até o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Se apresenta como a mais preparada para o voto. À maioria “ignorante” cabe seguir o comando, crença repetida de cima para baixo até o piso social. E a nata da elite intelectual bebeu do veneno ao definir o PT como sigla da defesa da ética na política. Deu no que deu.
De que modo?
A elite paulista apresenta a corrupção, sempre a dos outros, e não a escravidão, como mal original do país. Após seguidos anos de governos petistas, a defesa da moralidade para os outros se tornou base para a conquista dos pobres de direita. E o PT caiu na armadilha. Não vai ser com memes engraçadinhos que reverterá a situação desesperadora.
Pesquisas apontam o presidente Lula (PT) à frente em 2026. Não é precoce fazer a autópsia da esquerda?
A luminosidade do Lula, demonstrada uma vez mais na reação ao tarifaço, mascara a precariedade da esquerda. Ao sublinhar a realidade nada empoeirada do imperialismo, com as terras raras e os interesses das big techs, Donald Trump ofereceu uma oportunidade para a esquerda brasileira ressuscitar. Lula colabora na esfera do pertencimento simbólico, é o pobre no Poder. Mas tudo isso, paradoxalmente, nubla a fragilidade da esquerda, como se vê nas discussões de bares e no resultado das urnas no Congresso e nos governos estaduais em 2022. A esquerda vai para 2026 sem direção. Para além do Lula, não sabe quem é. Não disputa as ideias.
A nomeação do deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP) para o ministério levou, como disse Lula, o governo às ruas?
Sim, mas não resolveu o vazio na disputa de visões de identidade nacional. O governo entra 2026 atento ao cotidiano e a seus temas urgentes— segurança pública, programas de renda, impostos— mas vazio nas ideias, dominadas pelo outro flanco. A esquerda precisa contar às pessoas, como fez a direita, uma história de país.
Neste sentido, a justiça tributária pode ser uma arma importante para a esquerda?
Sim, desde que a narrativa não seja economicista, como nos números macroeconômicos do ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), e na reindustrialização do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). O eleitor de baixa renda quer, como na discussão sobre a escala de trabalho, se sentir protagonista, algo que também precisa ser levado em conta ao tratar da soberania nacional.
O discurso em torno da soberania nacional seguirá importante em 2026?
Sim. E pode e deve ser usada pela esquerda para voltar à vida. Justiça tributária e soberania nacional oferecem a oportunidade de reviver ideias pessimamente aprofundadas por quem tem, nos dois casos, faca e queijo nas mãos. Uma delas é a escravidão, persistente no subemprego majoritariamente preto, na exploração e humilhação do trabalho, que deve sim ser tratada na disputa.
As pesquisas mostram que segurança pública é trunfo da direita para 2026. A esquerda pode reverter isso?
Este é o tema mais espinhoso para a ressurreição da esquerda. O desafio é conciliar a defesa do indivíduo com a denúncia do racismo e da desigualdade social como origens centrais da criminalidade. E, ao mesmo tempo, se opor a um punitivismo genérico, como o da reação à operação no Complexo da Penha, no Rio, sem deixar de atentar para a sensação de insegurança dos eleitores. É preciso defender o endurecimento na punição de crimes específicos, entre eles estupro e feminicídio, sem deixar de trabalhar para o aumento da confiança das pessoas nas polícias e na Justiça. Não há outra saída para a esquerda a não ser andar nesse fio de navalha.
De que modo a esquerda poderia ampliar sua votação já em 2026?
Se denunciar e nomear o inimigo real que deixa o eleitor mais pobre, quem o explora. Ou então irá se resignar à representação partidária de grupos cada vez mais específicos, como os identitários. É preciso acoplar a herança escravocrata ao jogo imperialista, usar com inteligência o presente de Trump, que ofereceu a senha para a ressurreição da esquerda. Mas a chance de se perder a oportunidade é grande.
Por quê?
Há agora determinação do governo em conversar com o povo, mas com qual narrativa? É importante fortalecer os movimentos sociais, mas o eleitor também precisa ser abordado diretamente. Uma tentação é celebrar a condição de oprimido. A direita driblou essa armadilha ao defender que o pobre é livre para mudar sua condição por conta própria. A esquerda precisa encontrar narrativa própria para vencer em 2026 inclusive com o pobre de direita e não apesar dele. Para isso, precisa conscientizá-lo sobre os motivos reais de estar em posição tão desprivilegiada.
O enfraquecimento do bolsonarismo, com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) preso, não deixa o voto do pobre de direita mais em disputa?
Lula está hoje à frente na corrida para 2026, mas não vence com o voto do pobre de direita e sim apesar dele, que seguirá com o bolsonarismo, mesmo enfraquecido. A traição da pátria, com o tarifaço, colou muito no (deputado) Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Mas a extrema direita segue liderada pela família do ex-presidente. Os Bolsonaro ainda são os mais facilmente identificáveis por este eleitor à pauta de costumes conservadora, com misoginia e oposição às cotas e aos direitos LGBTQUIA+. O pobre de direita ainda crê que ser heterossexual o deixa em posição superior às mulheres, aos gays e aos mais pretos do que ele. É seu respiro de superioridade. O voto do pobre de direita seguirá em 2026 sendo também, insisto, um reflexo da falta de qualquer elaboração sobre o país. A esquerda pode e deve disputar esse voto, mas para isso precisa se dedicar a esclarecer esse eleitor, a investir em sua transformação pelas ideias, algo que foi incapaz de fazer ao chegar ao poder em 2002, mesmo com aprovação popular recorde e um Congresso à época mais coadjuvante e obediente.
A reinvenção da esquerda passa pela Amazônia e pelo protagonismo ambiental do país?
Passa. Inclusive pela valorização dos amazônidas como agentes de conscientização da urgência global da região, da floresta. Eles são especialmente afetados, aliás, pela lógica da humilhação social, sentida no olhar de cima para baixo, muito mais significativo do que a esquerda parece perceber. Não adianta cruzar os braços e criticar os agentes da destruição no andar de baixo. O que não pode é eles receberem apenas a narrativa da direita, do agro, de que serão os próximos reis da soja. É preciso ir lá, estar lá, e isso demanda tempo, trabalho, estratégia e investimento, mas não há outra saída para a esquerda.