Desde que a bomba do banco Master estourou, ouve-se cada vez mais que esse é um escândalo suprapartidário. Afinal Daniel Vorcaro - como todo banqueiro - tem contatos políticos importantes na oposição e no governo Lula; sem falar no lamentável caso de dois ou mais ministros do STF envolvidos no escândalo.
A questão de interesse público, porém, é apontar quais foram as autoridades que atuaram a favor dos interesses de Vorcaro. Trata-se do lobby que tentou livrar a cara do banqueiro antes e depois da liquidação do Master, em 18 de novembro de 2025, quando Vorcaro chegou a ser preso, acusado de fraudes que ultrapassam 12 bilhões de reais.
Já na campanha de 2022, Daniel Vorcaro garantia suas conexões políticas. Fabiano Zettel, casado com a irmã de Vorcaro, Natália, muito próximo do banqueiro foi um dos maiores doadores da campanha eleitoral daquele ano e o maior doador privado das campanhas de Jair Bolsonaro (R$3 milhões) e Tarcísio de Freitas (R$2 milhões).
Naquele momento, o rendimento dos fundos de renda fixa do Master, muito superior ao oferecido por outras instituições, começava a despertar as desconfianças do mercado, mas as suspeitas chegaram à área técnica do Banco Central em dezembro de 2023. De acordo com o jornalista Luís Costa Pinto, que teve acesso a ofícios encaminhados ao Tribunal de Contas da União e ao Ministério Público, desde aquele momento o “risco de liquidez” do Master passou a ser monitorado pelo BC.
Durante todo o primeiro semestre de 2024, porém o BC, presidido por Roberto Campos Netto - nomeado por Jair Bolsonaro em 2019 -, deixou passar operações mais do que suspeitas e assistiu passivamente à crise contínua de liquidez do banco: de um mínimo de 15 bilhões de reais esperados para garantir essa liquidez, o Master captou apenas 2 bilhões. Mas o barco seguiu, com o reforço dos aliados de Vorcaro no Congresso.
Como os fundos de renda fixa do Master dependiam fortemente do Fundo Garantidor de Crédito - que agora vai restituir os recursos dos que investiram até 250 mil reais no banco liquidado - o senador Ciro Nogueira (PP-PI), apresentou uma PEC - que ficou conhecida como “emenda Master” - quadruplicando o valor da cobertura que passaria a 1 milhão de reais. Só não foi adiante porque os grandes bancos comerciais, que contribuem com a maior parte do valor desse fundo, também têm suas bancadas no Congresso: a PEC foi rejeitada pelo relator na CCJ do Senado em agosto de 2024.
Mas a essa altura, o Master já havia aberto novos caminhos políticos, desta vez, mirando um banco público, o BRB (Banco de Brasília), então presidido por Paulo Henrique Costa, escolhido pelo governador Ibaneis Rocha (MDB-DF) que chegou a ser afastado do cargo por suspeitas de omissão na contenção dos atos golpistas de 8 de janeiro.
Em julho de 2024, o BRB começou a comprar carteiras de crédito inexistentes do Master, negócios que chegariam a 12 bilhões de reais, segundo estimativa da Polícia Federal na Operação Compliance. Os interlocutores de Daniel Vorcaro no BRB, que o teriam aproximado de Ibaneis - candidato ao Senado neste ano - foram o senador Ciro Nogueira e Antonio Rueda, presidente do União Brasil, partido que comanda a Rioprevidência, que por sua vez comprou quase 1 bilhão de reais em letras podres do Master.
Não foi o único fundo de funcionários estaduais arrastado para o Master: no Amapá, onde o amigo de Vorcaro é o senador Davi Alcolumbre (União-AP), o prejuízo foi de 400 milhões de reais.
Enquanto o BC fazia cara de paisagem, houve ainda uma tentativa de ressuscitar a “emenda Master” na Câmara, em forma de um PL apresentado em novembro de 2024 por Filipe de Barros (PL-PR), muito próximo de Eduardo Bolsonaro, e investigado no inquérito das Fake News. Uma tentativa de acenar para os investidores cada vez mais recalcitrantes do Master de que haveria uma luz no fim do túnel, o que também não funcionou.