sexta-feira, janeiro 30, 2026

A anatomia de uma fraude que expõe a fraqueza das instituições no Brasil


Expansão se deu por meio de operações mal explicadas

Pedro do Coutto

O escândalo envolvendo o Banco Master deixou de ser apenas mais um caso rumoroso do noticiário econômico para se tornar um raio-X incômodo das fragilidades institucionais do país. Em artigo recente, Malu Gaspar, em O Globo — uma das jornalistas investigativas mais respeitadas do Brasil — descreve o episódio como a “anatomia de uma fraude”, expressão precisa para um caso que cresceu, ganhou terreno e passou a envolver personagens centrais do sistema financeiro, do governo e até do Supremo Tribunal Federal.

O ponto de partida é a atuação de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, cuja ascensão foi acompanhada por práticas que hoje soam, no mínimo, temerárias. A expansão agressiva do banco se deu por meio de operações mal explicadas, carteiras infladas artificialmente e uma engenharia financeira que, ao longo do tempo, revelou sinais claros de fraude. Não se trata de uma interpretação ex post: desde 2024, analistas do mercado já descreviam a situação como uma “bomba-relógio”, visível a quem quisesse enxergar.

TEIA DE RELAÇÕES – O caso se agrava quando se observa a teia de relações políticas e institucionais que cercou o banco. A contratação de figuras de peso — como ex-ministros e nomes com trânsito no Planalto e no Congresso — ampliou o alcance do escândalo. A presença de Ricardo Lewandowski como advogado, ainda que posteriormente encerrada, levantou questionamentos éticos profundos. Sua eventual permanência no caso poderia, como observadores apontaram, respingar até mesmo na estabilidade política do governo Lula e em um eventual projeto de reeleição.

Outro ponto sensível foi a contratação de Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda, por indicação política, o que aumentou a pressão sobre o governo federal. O Planalto, que já enfrentava dificuldades em outras frentes, viu sua posição fragilizada diante da percepção de proximidade excessiva com um banco que, pouco depois, se revelaria um epicentro de irregularidades.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Descobriu-se um rombo estimado em cerca de 12 bilhões de reais, fruto de carteiras de crédito vendidas com valores artificialmente inflados — inclusive ao Banco Regional de Brasília — e de investimentos sem lastro econômico razoável. Um dos episódios mais emblemáticos foi a injeção de centenas de milhões de reais em uma pequena empresa cujo negócio principal era a realização de festas infantis, algo completamente incompatível com a lógica de gestão prudente de recursos financeiros.

ARRANHÃO – A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão responsável por fiscalizar o mercado de capitais, também saiu arranhada. Segundo relatos já públicos, técnicos alertaram para irregularidades, mas seus pareceres foram ignorados em favor de acordos que resultaram em multas consideradas irrisórias. O diretor que avalizou esses arranjos acabou, paradoxalmente, promovido, após a renúncia do então presidente da autarquia — que teria confidenciado a pessoas próximas ter sofrido ameaças.

No Supremo Tribunal Federal, o caso ganhou contornos ainda mais delicados. Há uma corrente que defende a transferência de parte das investigações para a primeira instância, o que, na prática, pode significar atraso, fragmentação do processo e risco de prescrição. Como alertou Merval Pereira, também em O Globo, o simples fato de a Corte cogitar essa divisão já acende um sinal de alarme no convés da mais alta instância do Judiciário. Abrir mão de uma investigação que envolve ministros do próprio tribunal não parece compatível com a gravidade do momento.

IMPACTO ELEITORAL – Politicamente, o impacto eleitoral tende a ser limitado. O escândalo atinge, direta ou indiretamente, diferentes campos do espectro político, o que dilui seu potencial de uso imediato como arma eleitoral. Ainda assim, o caso do Banco Master entra para a história recente como um dos exemplos mais escancarados de falhas de governança, fiscalização frouxa e promiscuidade entre poder econômico e poder político.

A anatomia dessa fraude revela mais do que um banco problemático: expõe um sistema que reage tarde, pune pouco e frequentemente protege os de sempre. Enquanto essa lógica persistir, novos “casos Master” continuarão a surgir — talvez com outros nomes, mas com a mesma essência.