Publicado em 26 de outubro de 2022 por Tribuna da Internet

Ilustração reproduzida do Arquivo Google
Renata Cafardo
Estadão
Um contingente estimado em 100 milhões de pessoas, que têm perfil diverso e difícil de ser capturado por análises, se tornou um dos mais expressivos segmentos eleitorais do País, cujo comportamento pode ser fator decisivo em disputas polarizadas como a corrida presidencial deste ano.
Para estudiosos do tema, é nessa fatia populacional – chamada de classe C – que se concentra em grande parte a explicação para a formação de uma onda à direita na votação em primeiro turno das eleições. Além dos 51 milhões de votos alcançados por Jair Bolsonaro (PL), viu-se o triunfo de candidatos associados ao presidente nas eleições legislativas.
DIZ O IBGE – Conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) de 2020, do IBGE, compilados pela consultoria Plano CDE para o Estadão, a classe C hoje compreende famílias com renda mensal entre R$ 500 e R$ 2 mil por pessoa, podendo chegar a R$ 8 mil no total.
Essa parcela representa 55% da população brasileira, mas está mais concentrada nas regiões onde candidatos bolsonaristas tiveram melhor desempenho e Bolsonaro venceu a disputa com Luiz Inácio Lula da Silva (PT): no Sudeste (59%), no Centro-Oeste (61%) e no Sul (63%).
No Nordeste, onde a maioria votou em Lula, as classes D e E correspondem à maior parte, 47%, e a classe C é menor, com 45%.
SENSAÇÃO DE ABANDONO – Neste segmento socioeconômico, analistas identificam um forte sentimento de abandono somado à desconfiança em relação ao Estado. E ainda impactado pelas consequências de uma decadência após melhora de vida nos anos 2000. Os valores morais, com influência da religião, e a grande dificuldade em se mobilizar com pautas intangíveis são outras duas características marcantes.
”O discurso de que o Estado não funciona e é corrupto é muito aderente a esse público”, observa o antropólogo Maurício de Almeida Prado, diretor executivo da Plano CDE, empresa de pesquisa e consultoria especializada em classes populares.
Ele ressalta que a insatisfação é também grande com os serviços públicos, como saúde e educação, que eventualmente a classe C se vê obrigada a utilizar.
PRÓ-BOLSONARO – Percepções como essas estão mais alinhadas com o discurso de Bolsonaro, que tenta a reeleição, e com a bandeira de muitos dos novos eleitos para o Congresso. Em comum, também, a defesa de que o Estado não interfira na vida das pessoas, além da retórica anticorrupção simbolizada nos casos envolvendo o PT.
De acordo com analistas, iniciativas como o aumento do auxílio emergencial às vésperas das eleições não mudaram essa relação já estabelecida entre o atual presidente e o Estado mínimo.
“Mesmo que Bolsonaro não tenha conseguido fazer ações nesse sentido, o ‘não fique em casa’, o ‘Estado me atrapalha’, menos coletivo e mais individual, é uma visão que colou nele e que tem respaldo nesse grupo”, completa Prado.
###
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Em tradução simultânea, trata-se da chamada maioria silenciosa, aquela que não faz marola, mas pode virar o barco, na hora da eleição. (C.N.)
Limbo
O professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Lauro Gonzalez vê “um caldo de ressentimento em um grupo que está no limbo”, nem tão pobre para entrar em programas sociais, mas que também não conseguiu o sucesso que esperava mesmo com mais escolaridade que seus pais. Muitos também não são negros, o que não lhes deu benefícios como cotas raciais, que se tornaram lei em 2012. Após anos seguidos de crescimento econômico, de renda e queda de desigualdade, a classe C retrocedeu após 2014, com a recessão no País.
No foco de estudo de Gonzalez estão os “microempreendedores por necessidade” – não aqueles que promovem inovações disruptivas, mas os que abrem um pequeno negócio para se sustentarem. “É um contingente grande de pessoas que estudaram, cursaram faculdade, tiveram mais acesso, mas se viram depois em um mercado de trabalho caracterizado pela recessão, precarização, com crescimento de plataformas na internet, uberização. Elas acabam atribuindo ao Estado a responsabilidade pelo que está acontecendo”, destaca o economista.