quinta-feira, julho 28, 2022

Procuradora usa “sinceridade” de Bolsonaro para inocentá-lo dos crimes na pandemia


De "jacaré" a "vacina do Doria": relembre frases de Bolsonaro sobre vacinação | A Gazeta

Bolsonaro parecia um “garoto-propaganda” da cloroquina

Elio Gaspari
Folha

A vice-procuradora-geral da República, Lindôra Araújo, informou ao Supremo Tribunal Federal que Jair Bolsonaro “acreditava sinceramente” que a cloroquina era um remédio eficaz contra a Covid. A esta altura a pandemia já matou mais de 670 mil pessoas no Brasil.

A doutora disse isso para respaldar o pedido de arquivamento das conclusões da CPI da pandemia. É direito da PGR acreditar sinceramente no seu pedido de arquivamento. Caberá ao STF decidir o que fazer com as denúncias.

ACREDITE SE QUISER – Hoje, estima-se que de cada cem pessoas, 27 não acreditam que os astronautas americanos foram à Lua. Nesse grupo, 21 têm o ensino médio completo. Vinte em cada cem acham que a terra é plana. Donald Trump também acreditava na cloroquina, mas abandonou a sua defesa. Bolsonaro continuou na pregação.

O relatório da CPI que a doutora prefere arquivar informa que no dia 24 de março de 2020 anunciou, em rede nacional, que “o vírus chegou, está sendo enfrentado por nós e brevemente passará”. Como? Talvez com a cloroquina. Voltou ao assunto no dia 24 de outubro: “no Brasil, tomando a cloroquina no início dos sintomas, 100% de cura.” Na véspera haviam morrido 566 pessoas e o total de mortos estava em 156.528.

Bolsonaro tem uma queda por substâncias e iniciativas mágicas. Acredita nos efeitos econômicos milagrosos do nióbio e do grafeno. Chegou a anunciar que visitaria uma empresa de militares americanos que pesquisa a transmissão de energia elétrica sem fios. Seria um milagre para a Amazônia. Felizmente não foi à empresa.

ESTRANHAS TEORIAS – Acreditar que a terra é plana, que o homem não foi à Lula e que a cloroquina controla a Covid, é um direito de cada um. Cardeais e Papas acreditavam em coisas desse tipo. Em 1.600 a Inquisição romana queimou Giordano Bruno por defender as ideias de Copérnico, para quem a Terra girava em torno do Sol. (A estátua de Bruno, no Campo das Flores, em Roma, informa: “Aqui ardeu a fogueira”.)

Em 2020, Bolsonaro demitiu dois ministros da Saúde porque não acreditavam nas virtudes da cloroquina. Bruno metia-se com ocultismos. Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, nunca se meteram com mágicas e não foram queimados.

Um terraplanista convicto pode ter acreditado sinceramente que a cloroquina controlaria a Covid. A diferença entre ele e Bolsonaro está na persistência da convicção do capitão e, sobretudo, no fato de ter se baseado nessa crença sincera para demitir dois ministros, irradiando a superstição enquanto pessoas morriam. Registre-se que ninguém morreu porque o vizinho achava que a Terra girava em torno do Sol e, desde o fim da Inquisição, ninguém foi queimado por isso.

MALES DA IGNORÂNCIA – Existem dois tipos de ignorância. A plena e a aquela que mesmo podendo ser sincera, é instrumentalizada. Os cardeais que mandaram Giordano Bruno para a fogueira podiam acreditar que a terra era fixa, mas estavam interessados também em preservar seu poder.

Quando a Inquisição chegava à Bahia, os seus defensores queriam também tomar as propriedades dos judeus. No século 20, essa mesma instrumentalização alimentou o antissemitismo europeu.

 

Enquanto esteve na moda, a cloroquina pouco teve a ver com a sinceridade da convicção. A partir das evidências científicas da usa inutilidade, foi um instrumento político (e comercial em alguns hospitais e planos de saúde).