quinta-feira, julho 28, 2022

O Papa Francisco configura a Igreja para um mundo pós-Ocidental




O Papa Francisco veio trazer ao Vaticano uma nova tradição, do Catolicismo da America Latina, com a sua relação complexa com a teologia da libertação e a desconfianca das intenções do mundo ocidental. 

Por Madalena Meyer Resende (foto)

De visita ao Canadá para um acto de contrição pela colaboração da Igreja com as práticas colonialistas do estado Canadiano, o Papa Francisco demarca a Igreja da sua associação com a cultura Ocidental, com o que ela tem de mau, mas também de bom. De louvar é, claro está, a política clara de Francisco face aos abusos contra os Direitos Humanos – que ele, enquanto Papa tem conduzido de forma corajosa. Mas no discurso de Francisco ressoam também um tom anti-colonialista e uma crítica mais fundamental que aponta para a sua vontade de re-orientar a Igreja para um futuro pós-Ocidental.

Os sinais da re-orientação da Igreja Católica para a Ásia, a África e a América Latina não são novos. A pujança do Catolicismo nestes continentes contrasta com o declínio do Catolicismo na Europa e na América do Norte. Afinal, só 24% dos Católicos vivem na Europa, contra 39% na América Latina. Na Europa o número de crentes decresce, enquanto no resto do mundo aumenta. Mas as origens do Catolicismo estão sem dúvida na Europa, e a tradição tem mantido o foco no Velho Continente. O Papa João Paulo II teve um pontificado verdadeiramente universalista, contudo manteve as suas raízes na Europa e na sua Polónia natal, como a âncora central do seu pontificado. O seu sucessor, Benedito XVI, defende que a relação simbiótica entre a teologia Católica, os Direitos Humanos e a democracia liberal são parte central da identidade Europeia. Para Benedito XVI, a dissolução da síntese entre Catolicismo e Europeísmo seria fatal para ambos.

O Papa Francisco veio trazer ao Vaticano toda uma nova tradição, a do Catolicismo da América Latina, com a sua relação complexa com a teologia da libertação, uma aproximação ao marxismo e a desconfiança das intenções do mundo ocidental e, em particular, dos EUA. Reflexo desta mentalidade, são as declarações de Francisco culpando a NATO pela invasão da Rússia. Apesar de condenar a Guerra como abominável, Francisco não nomeou a Rússia e Putin como os instigadores do conflito. Francisco sugeriu que talvez “o ladrar da NATO às portas da Rússia” tenha provocado Putin a invadir o seu vizinho. Quando interrogado se era certo enviar armas para que a Ucrânia se possa defender, o Papa disse “não sei”, antes de criticar o comércio global de armas. Esta ambiguidade tem sido condenada por todos os que consideram que a força moral do Papa seria um factor importante para a opinião pública internacional face à guerra.

Por último, Francisco prosseguiu uma estratégia clara de reconfiguração da representação geográfica do colégio de cardeais – o corpo que irá eleger o seu sucessor. Como resultado das novas nomeações, o colégio perde a maioria de bispos eleitos europeus – de 53% para 40%. Os novos cardeais nomeados por Francisco são maioritariamente da Ásia, América Latina e África, tornando mais provável que a Igreja seja permanentemente reorientada para as questões, sensibilidades e prioridades do mundo não-Ocidental. Francisco, o primeiro Papa não-Europeu desde o século VIII, preside a uma nova era do Catolicismo.

Observador (PT)