quarta-feira, julho 27, 2022

A convenção do centrão e o golpe




Execrados em 2018, agora os chefes da rapinagem são reverenciados

Por Cristina Serra

Foi um espetáculo grotesco de inversão da lógica política a convenção do PL que tornou oficial a candidatura de Bolsonaro à reeleição. Deve ser a primeira vez no mundo que alguém se candidata atacando o sistema eleitoral que o elegeu e pelo qual será candidato mais uma vez.

A convenção não era apenas do PL de Valdemar Costa Neto. Era também do centrão, já que lá estavam os expoentes dos partidos que formam a base de apoio do governo e que compõem a facção política mais corrupta de que se tem notícia no Brasil contemporâneo.

Execrados em 2018 pelo general que fez até paródia de samba para enganar trouxa, agora os chefes da rapinagem são reverenciados. Só faltou Bolsonaro se ajoelhar aos pés do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), operador do orçamento secreto e arquivista de pedidos de impeachment, que garante as noites de sono no Palácio da Alvorada.

A presença de Lira é um endosso explícito ao projeto golpista do presidente. Lira não deu uma palavra, até hoje, sobre a pregação de ruptura institucional feita por Bolsonaro a representantes diplomáticos. Não se deu ao trabalho de pronunciar um laivo que fosse de crítica ou condenação, ainda que protocolar já que, teoricamente, representa 513 deputados.

Lira é tão pernicioso quanto Bolsonaro para a democracia. Sob seu comando, a Câmara exala o mau cheiro das substâncias em estado de decomposição. Lira é parte do golpe, qualquer que seja o modelo de ruptura que vier a ser tentado pelo demente do Planalto. Seria injusto, porém, não mencionar o terceiro pilar da insânia golpista, o desaparecido procurador-geral da República, Augusto Aras. Os três degradam as instituições que representam.

No show de horrores que foi a convenção, quase a cerimônia de uma seita, o presidente fez um apelo aos seus seguidores para que ocupem as ruas no 7 de Setembro pela "última vez". Assim será. Bolsonaro perde força e será escorraçado em outubro pelas urnas que tanto teme.

Folha de São Paulo

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Entre esperança e realismo

Se ele vencer e não houver golpe, pegará uma conjuntura especialmente difícil

Por Hélio Schwartsman

Dentro de um mês, terá início a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV. É difícil triunfar numa disputa presidencial sem passar uma mensagem de esperança ao eleitorado. As pessoas gostam de ilusões positivas. O risco é o candidato vencedor exagerar na dose e criar expectativas muito irrealistas em relação ao governo, situação em que o posterior choque de realidade poderá custar caro ao dirigente.

O Chile é um bom exemplo desse efeito. Gabriel Boric assumiu a Presidência em março, com 50% de aprovação popular. Agora, está com meros 34%. Em quatro meses de mandato, ele perdeu 16 pontos percentuais de popularidade. A julgar pelas pesquisas, o projeto de uma nova Constituição, que, para ser adotada, precisa ser aprovada em plebiscito em setembro, corre sério risco de rejeição. A nova Carta não é obra de Boric, mas ambos se identificam com o campo ideológico da esquerda.

A explicação dos analistas é que Boric se elegeu prometendo um governo muito diferente dos anteriores, em que haveria o rechaço da política tradicional, direitos para todas as minorias, respeito ao ambiente etc. Nada disso se materializou (e nem poderia, em tão curto espaço de tempo) e a população ainda precisa conviver com uma inflação que roda em torno dos 10% anuais.

Luiz Inácio Lula da Silva, que é o favorito para suceder a Jair Bolsonaro, precisa encontrar o ponto de equilíbrio entre esperança e realismo. Se o petista de fato vencer e não houver golpe, ele pegará uma conjuntura especialmente difícil, muito pior do que a que encontrou em 2003. Além da terra arrasada deixada por Bolsonaro, ele terá de lidar com uma situação fiscal muito pior, uma Presidência com poderes bastante diminuídos e, possivelmente, com o mundo entrando em recessão. Sua campanha não pode deixar de vender alguns sonhos aos brasileiros, mas precisaria evitar os episódios mais explícitos de estelionato eleitoral.

Folha de São Paulo