quinta-feira, novembro 25, 2021

Inflação é problema global, mas América Latina sofre mais




Choques de inflação atingem o mundo todo, mas em nenhum lugar o impacto é tão forte quanto na América Latina.

Os preços em alta comprometem as metas de bancos centrais em todas as maiores economias da região, com inflação anual de 6% neste mês no Chile, 6,2% no México, 10,7% no Brasil e 52% na Argentina. Grandes bancos de Wall Street projetam que o custo médio de vida na América Latina encerre o ano acima de 10%, o maior índice global, e preveem que a pressão sobre os preços ao consumidor se estenderá ao longo de 2022.

A inflação mais alta do mundo agrava os problemas na América Latina, uma das regiões mais afetadas na pandemia. E, embora o apoio fiscal não tenha precedentes em muitos países latino-americanos, na maioria representou uma fração da generosidade observada nos EUA, Alemanha ou Japão.

Agora, num momento que a região emerge da pior crise econômica em 200 anos, os latino-americanos enfrentam um cenário de baixo crescimento e inflação acelerada. A catástrofe econômica já provocou retrocessos nos esforços de redução da pobreza e também pode estimular a migração e fuga de talentos: trabalhadores afetados pela perda de poder aquisitivo podem ter mais probabilidade de ir para os EUA em busca de um futuro melhor.

Em resposta, bancos centrais da América Latina embarcaram em um ciclo de aperto monetário que está entre os mais agressivos do mundo, mas que, por enquanto, teve pouco efeito sobre as crescentes expectativas de alta dos preços. Um problema é que os fatores que elevam a inflação - como gargalos no transporte marítimo global e custos mais altos das commodities - provavelmente não serão domados com juros mais altos. Mas outra questão específica para a região é a profecia autorrealizável das expectativas de que a situação só vai piorar, uma percepção alimentada por rápidos aumentos de preços nas últimas décadas.

“Choques de oferta não são realmente algo que seja possível combater com política monetária”, disse André Loes, economista-chefe para a América Latina do Morgan Stanley em São Paulo. “A América Latina tem um histórico de inflação mais longo do que a maioria, e isso causa um impacto relevante nas expectativas. As pessoas ainda lembram daqueles anos.”

A inflação anual na América Latina deve fechar 2021 em 10,6%, segundo o Citigroup. O Morgan Stanley estima para as seis maiores economias ponderadas pelo crescimento uma alta dos preços também acima de 10%. A mediana das projeções de economistas consultados pela Bloomberg aponta para uma inflação média de 11,9% neste ano e de 10,4% em 2022 na região, o ritmo mais rápido do mundo.

Os efeitos podem ser vistos em toda a região. No Brasil, os preços da carne de frango e ovos subiram 29% em outubro na comparação anual. No México, o gás de cozinha subiu 8,2% no mês.

Os mercados também refletem o pessimismo. As taxas de swap no Brasil dispararam, com os traders precificando a alta da taxa de juro básica para 12% em 2023, a mais alta desde 2017. Uma medida de expectativa de inflação dos bônus de dois anos do México atingiu 5,08% no início de novembro, bem acima da meta de 3% do banco central. A dívida denominada em moeda local das seis maiores economias da América Latina perdeu 15% neste ano, segundo um índice da Bloomberg.

Um dos maiores problemas da situação atual é que os aumentos nas taxas de juros e nos preços das exportações de commodities não estão fortalecendo as moedas locais, o que aumentaria o poder de combate à inflação ao reduzir o custo das importações. Em vez disso, as moedas do Chile, Colômbia e Argentina caíram pelo menos 10% neste ano, enquanto o peso do México e o real do Brasil também caíram em proporções menores.

“Os preços mais altos das commodities costumavam significar moedas mais fortes para a América Latina, mas essa correlação parece ter sido quebrada com a pandemia”, disse Ernesto Revilla, economista-chefe do Citigroup para a América Latina. “Não foi o choque transitório usual a que estávamos acostumados.”

A alta da inflação tem aumentado a pressão sobre os governos latino-americanos para controlar os gastos e cortar os déficits orçamentários, da mesma forma que as populações de toda a região exigem mais apoio.

Os preços ao consumidor do Chile saltaram para a maior alta em 12 anos, em parte devido aos saques antecipados das contas privadas de Previdência que alimentaram o consumo e o aumento da demanda por eletrônicos e carros novos. Na Colômbia, o governo propôs uma reforma tributária que levou a uma reação contrária tão ruidosa das ruas que o ministro das Finanças foi forçado a renunciar. O Brasil está discutindo mudanças em seu teto de gastos para abrir espaço para novas transferências de dinheiro.

Com as eleições presidenciais se aproximando no Brasil e na Colômbia no próximo ano, Revilla disse que não ficaria surpreso em ver governos optando por formas criativas de controlar o impacto da elevação dos preços em seus eleitores. O Brasil, por exemplo, está discutindo subsídios para a gasolina.

Quaisquer que sejam as perspectivas fiscais, nenhuma das principais economias da América Latina deverá atingir sua meta de inflação neste ano. Brasil e México, as maiores economias, provavelmente encerrarão 2021 com uma taxa de inflação duas vezes acima de suas metas.

“Os bancos centrais estão tentando evitar que os investidores passem a acreditar que se trata de um choque de oferta que resultará em inflação permanente”, disse Mario Castro, estrategista de taxas do Banco Bilbao Vizcaya Argentaria. “E eles estão cruzando os dedos para que não precisem subir os juros muito agressivamente.”

O Brasil aumentou os custos dos empréstimos em 5,75 pontos percentuais desde março - a maior alta nas taxas do mundo. O Chile só começou a apertar sua política monetária em julho, mas agora elevou sua taxa de juro básica em 225 pontos-base. A Colômbia adicionou 75 pontos-base à sua taxa de juros básica e o México adicionou 100 pontos-base.

A crise da inflação na América Latina é apenas mais um fator que pesará sobre o crescimento e a redução da pobreza nos próximos anos, segundo a equipe de economistas do Goldman Sachs Group liderada por Alberto Ramos.

Com piora da perspectiva social após a pandemia, “os velhos inimigos de baixo crescimento e da inflação alta começam a encenar um retorno”, escreveram recentemente.

Valor Econômico