terça-feira, dezembro 25, 2018

Mister Trump abala Washington, os EUA e o resto do planeta


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Charge do João Bosco (Arquivo Google)
Sérgio AbranchesBlog do Matheus Leitão
O ano vai terminar com o mundo entre atônito e temeroso com os últimos desatinos do presidente Donald Trump. Washington corre o risco de sofrer as consequências da paralisação do governo federal, o “shutdown”, por causa do impasse no orçamento provocado pela insistência de Trump em incluir um punhado de bilhões de dólares para a construção do muro na fronteira com o México. Uma falsa solução para dilema complexo, que provoca enrascadas reais.
Enquanto a Washington federal fecha as portas, o mundo assiste perplexo a saída do secretário de Defesa, Jim Mattis, criticando abertamente a decisão de Trump de se retirar da Síria e do Afeganistão, sem planejamento e estratégia política. São duas guerras inglórias, nas quais o EUA entrou por equívoco, mas, uma vez engajado na ação militar, a saída destrambelhada cria mais problemas que soluções.
GUERRAS SEM FIM – Obama podia ter saído do Afeganistão e a promessa de Trump na campanha de efetivá-la parecia fazer sentido. Todos os bons analistas previram que as ações aéreas na Síria terminariam no comprometimento de tropas. Desde o Vietnam, os Estados Unidos têm se metido repetidamente em guerras intermináveis no modelo tradicional, com a derrota e rendição do “inimigo”.
Apesar das perdas pesadas de vidas humanas e do drama dos ex-combatentes — heróis no front, deserdados em casa — o motor bélico de Washington não resiste à tentação de se meter nessas guerras sem fim. Além dos custos humanos, das humilhações recorrentes do maior poderio militar global, depois que se entra nesses conflitos, é muito difícil sair bem. Basta ver o que aconteceu no Iraque.
Trump é um tipo novo de presidente. Inexperiente e voluntarista, convencido de que governar é um ato de vontade pessoal, autorizado por um cheque em branco da maioria eleitoral que o elegeu. Nós também teremos um presidente deste tipo pelos próximos 4 anos.
VONTADE PURA? – Governar nunca foi isso. Além de mais complexo, numa democracia, exige alguma autocontenção. Governar no improviso, na base da vontade pura, sem medir consequência, sem entender as implicações mais amplas das decisões, sem pensar no interesse público, nos parceiros domésticos e globais, nos compromissos históricos, nas responsabilidades sociais nunca terminou bem na história política mundial.
O desprezo e desrespeito pelos compromissos multilaterais assumidos pelo Estado americano atingem como mísseis desgovernados o delicadíssimo equilíbrio geopolítico global, em um momento de transição disruptiva. Abandonar o multilateralismo quando é crescente a ineficácia dos estados nacionais em dar respostas isoladas a problemas que se manifestam localmente, mas têm origem ou ramificações globais, é um ato de insensatez. É o que Trump tem feito e que o Brasil se prepara para fazer.
LEMBRANDO CAPRA – No filme de Frank Capra, “Mr. Smith goes to Washington”, o senador novato Jefferson Smith chega ao Capitólio, sede do Congresso americano, cheio de ingenuidade e boas intenções. Ele logo descobre que seu mentor, o experiente senador Joseph Paine, não presta. Com sua alma de escoteiro e sua ingênua simplicidade, vence a todos. Um típico filme da era do american dream.
Hoje, os novatos em nada se parecem com Mr. Smith. Trump muito menos. Especialista em exagerar os argumentos a seu favor, é um esperto típico desse tempo de manipulações pela rede. Trocou a ingenuidade por agressivo voluntarismo e a simplicidade gentil do caipira pela carranca fechada de poucos amigos. Aliás, amigos é o que tem cada vez menos, e vários já o abandonaram descontentes com sua teimosia geniosa. Trump, não é um gênio, é apenas genioso.
FALSOS NÚMEROS – Na questão do muro, ele tuitou que os imigrantes custam aos cofres públicos US$ 250 bilhões por ano. Em termos brutos, não deve chegar a US$ 55 bilhões. Em termos líquidos, isto é descontando-se o que geram de consumo, renda e impostos — alguns usando registros falsos da Previdência, contribuem — deve ser muito menos. Ninguém sabe ao certo, exatamente porque são irregulares.
O balanço poderia ser positivo para os cofres públicos, se houvesse uma política de regularização. A política de caça aos imigrantes, somada aos bilhões de dólares que Trump quer gastar construindo um muro inútil, que pode se tornar fácil o símbolo de vergonhoso fracasso, talvez acabe custando muito mais.
No ano que está prestes a começar, Trump enfrentará ainda mais obstáculos ao exercício do seu voluntarismo. A Câmara de Representantes, com maioria Democrata que chega com as facas nos dentes, não aceitará esse tipo de inclusão no orçamento.
CUSTO MUITO ALTO – Se Trump insistir, o “shutdown’ pode virar rotina. O custo, direto e indireto, da paralisação da máquina federal é muito alto. Além disso, é pouco provável que escape a uma comissão parlamentar de inquérito sobre suas relações nada ortodoxas com os russos, durante a campanha e depois dela.
Trump chegou a Washington para agitar, mas anda cada vez mais contrariado porque não consegue moldá-la à sua vontade. Só tem conseguido paralisá-la. Mesmo quando, mimetizando seu reality show, vai demitindo à torta e à direita. Oops. Demitindo à direita, porque o outro lado está fora de seu alcance.