
Charge do Bier (Arquivo Google)
Jesus Chediak
Certa vez, perguntaram a Voltaire — considerado um dos mais notáveis jornalistas de todos os tempos — se ele não se sentia frustrado por não pertencer à nobreza, ao que respondeu: “Para que preciso de um cetro, se tenho a pena?” Se, na época de Voltaire, a imprensa era tão poderosa, imagine hoje com a nova mídia, a TV, o rádio, a internet e o avanço vertiginoso da tecnologia da informação em todos os setores da comunicação. A China já possui (pasmem!) um computador, o Via Lactea-2, que opera a uma velocidade de 54/9 petaflops (4,5 quatrilhões de cálculos) por segundo.
Nesse contexto, pensamos: quem controla o imenso poder da mídia, de que forma ele é usado e qual o seu reflexo na formação da consciência nacional? Essa é uma questão que vem sendo pautada e discutida nos setores mais esclarecidos de toda a América do Sul, onde a Argentina, por exemplo, já institucionalizou, no governo de Cristina Kirchner, um marco que regula os veículos de informação, que, agora, é questionado pelo atual presidente, Maurício Macri.
MONOPÓLIO – No Brasil, o monopólio dos meios de comunicação se desenvolveu durante os governos militares, mas a sua consolidação se deu depois da abertura política. Com a redemocratização do país, o poder saiu das mãos dos militares, porém não veio para a sociedade civil, mas migrou para o sistema financeiro, credor da dívida pública.
O Consenso de Washington, a partir da queda da União Soviética, em 1989, fortaleceu, ainda mais, o poder do capital financeiro que passou a usar a mídia para promover a ocupação dos países de periferia via espaço cultural. A partir de então, livres de qualquer censura, as empresas de comunicação passaram a editorializar a notícia, manipulando a opinião pública de forma tendenciosa e hegemônica, de acordo com os interesses de enfraquecer o Estado, promover privatizações e substituir a presença das instituições públicas e dos partidos políticos na formação da consciência popular.
CONTRADIÇÃO – Se, por um lado, as empresas de comunicação usam a própria mídia para clamar por uma liberdade de imprensa incondicional, por outro, se calam diante da responsabilidade de garantir à sociedade o direito à informação imparcial. Com a liberdade de imprensa plena de hoje, a sociedade está sendo informada corretamente?
Contra a regulação da mídia encontramos, por parte de setores liberais, o argumento de que não há democracia sem liberdade de expressão. Por outro lado, não há soberania nacional, se o Estado não tem poder regulador sobre as atividades que são de concessão pública e que se refletem sobre toda a sociedade, como é o caso da imprensa e da mídia em geral.
Para uma avaliação real do que ocorre, na relação mídia e sociedade, temos de considerar que tanto o Estado, com sua gigantesca dívida, quanto as empresas de comunicação, altamente endividadas, são reféns do capital financeiro que aumenta a cada dia o seu poder sobre todos os setores da economia e das instituições públicas acumulando lucros e dividendos exorbitantes.
SUPERDÍVIDAS – Em quanto estará a dívida dos veículos de comunicação que, há dez anos, era cerca de 10 bilhões de reais, segundo matéria (15.02.14) da Folha de São Paulo. Na época, as empresas – jornais, tvs, rádios, revistas e agências de notícias – cortaram 17 mil empregos em dois anos. Elas registraram um prejuízo de R$ 7 bilhões dos quais R$ 5 bilhões eram das Organizações Globo. Diante desse quadro, é fácil deduzir que tanto o Brasil, hoje com sua dívida de cerca de R$ 5 trilhões, quanto as empresas de comunicação, estão nas mãos dos donos do capital financeiro de dentro e de fora do Brasil.
Como se projeta o jornalismo diante desse quadro de dependência financeira. complexo e contraditório? Cícero Sandroni, jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras, nos diz que “hoje no Brasil não há liberdade de imprensa, mas de empresa”.
Sabemos que em todos os jornais é tradicional a página de opinião e o editorial, onde, legitimamente, se expressa o pensamento do dono da empresa. Mas na reportagem geral não se pode abrir mão do compromisso com a verdade que é o juramento do cidadão para o exercício ético da profissão de jornalista.
SEM CONTRADITÓRIO – No momento em que temos, em todos os veículos de comunicação, uma fala única sobre, por exemplo, a corrupção nas instituições públicas, elimina-se as múltiplas versões contraditórias que existem sobre os fatos, qualquer fato, e se afirma a versão que se deseja hegemonizar. Dessa forma, anula-se a dialética e se elimina o contraditório para promover a alienação coletiva comprometendo a gênese do pensamento crítico, fundamento da democracia.
Essa prática é politicamente criminosa já que atenta contra o direito à informação da sociedade e corrompe os princípios éticos não só do leitor, mas também do profissional de imprensa no exercício de sua profissão. É o mesmo que um diretor de hospital colocar veneno no medicamento que o médico dá ao paciente. E, no caso da televisão, essa corrupção abjeta se amplia e atinge a audiência de toda a nação, manipulando a consciência dos brasileiros mais simples e indefesos intelectualmente.
SINDICATO DO CRIME – Vale a pena refletir com Ignacio Ramonet, editor do “Le Monde Diplomatique” em espanhol, quando ele diz que “a mídia se tornou um sindicato do crime”.
Quando se é convocado como testemunha em um júri popular, há o juramento compromissado sobre a Bíblia de se dizer a verdade. O jornalista profissional fez o seu juramento de dizer a verdade sobre os acontecimentos que, uma vez publicada, fica para a posteridade, como testemunha da história. Se, daqui a cem anos, fizermos uma pesquisa histórica sobre os dias de hoje, iremos procurar os jornais como referência, e, se encontrarmos mentiras publicadas, nossa história será uma farsa apresentada como verdade para as gerações futuras.
VERDADE, SEMPRE – Portanto, o princípio ético inalienável que pauta a profissão de jornalista é o compromisso com a verdade. Aqui não se trata de discussão filosófica sobre verdades conceituais, mas, simplesmente, da afirmação do fato, como referência da verdade jornalística.
Carl Bernstein, em recente palestra na Escola de Magistratura do Rio de Janeiro, onde estive presente, representando a ABI, disse, com muita propriedade, que “a melhor reportagem é a versão que mais se aproxima do fato”, este designado como verdade.
Dessa forma, o fato é o acontecimento que referencia a veracidade da informação, e, assim, se torna a matéria-prima do produto elaborado, que é a notícia publicada. Logo a informação vem do fato que acontece independentemente do jornalista, mas a noticia é uma versão produzida e divulgada por ele, portanto é de sua responsabilidade e, também, da empresa que a publica.
ACESSO IRRESTRITO – O jornalista deve ter acesso total e irrestrito à informação e produzir a notícia no exercício pleno de sua liberdade de expressão. E concordo com os que acreditam que a imprensa livre é fundamental para a democracia. Mas, por outro lado, deve haver a contrapartida pública dessa liberdade incondicional, que é o direito social à informação, já que a imprensa não é uma casta, nem uma corporação fora da sociedade, agindo acima do bem e do mal, independentemente de tudo e de todos. Portanto, na democracia, cabe aos meios de comunicação, como a qualquer outro setor de outras atividades públicas, prestar contas das respectivas atuações à sociedade regulada pelo Estado.
MARCO REGULATÓRIO – Diante da demanda nacional pela discussão de um marco regulatório para a mídia, entendo que a ABI – Associação Brasileira de Imprensa – que tem em seu quadro social tanto donos de jornal quanto jornalistas – é a instituição centenária que deve trazer a si a responsabilidade de mediar essa discussão, de forma madura e democrática, entre os diversos setores interessados em encontrar um espaço legitimado para se debater a questão do monopólio da informação. O debate deve pautar a ética profissional no centro das questões a serem discutidas entre patrões e empregados das empresas de comunicação e, como extensão, se considerar o reflexo da atuação da mídia na sociedade. O objetivo final se constitui no encontro de uma forma regulatória comum, entre as partes, para o exercício da profissão de jornalista a partir de fundamentos que garantam à sociedade o direito à informação e não contradigam a liberdade de imprensa.
Em suma: o jornalismo é uma atividade essencial para a democracia, mas a mídia deve deixar de ser apenas um negócio e se tornar um bem social a serviço da verdade que informa sobre o nosso cotidiano e registra os acontecimentos que fundamentam a construção da História para a posteridade.
(Resumo da palestra que Jesus Chediak fez na Escola
Superior de Guerra, em 2015, sobre “Mídia e Poder”)
Superior de Guerra, em 2015, sobre “Mídia e Poder”)