segunda-feira, fevereiro 17, 2025

Temperatura acima de 40ºC aumenta risco de morte entre idosos, aponta estudo da Fiocruz

 

Temperatura acima de 40ºC aumenta risco de morte entre idosos, aponta estudo da Fiocruz

Por Claudia Colucci | Folhapress

Temperatura acima de 40ºC aumenta risco de morte entre idosos, aponta estudo da Fiocruz
Foto: Tomaz Silva / EBC

Em meio às previsões de calor intenso para os próximos dias, um novo estudo da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) mostra que a exposição a temperaturas acima de 40ºC por quatro horas ou mais estão associadas a um aumento de 50% de mortalidade por doenças como hipertensão, diabetes, Alzheimer, insuficiência renal e infecção do trato urinário entre idosos.
 

No trabalho, foram analisados todos os 466 mil registros de mortes naturais ocorridas no Rio de Janeiro entre 2012 e 2024, e mais de 390 mil mortes por 17 causas selecionadas —das quais, 12 tiveram alta da mortalidade para idosos no calor extremo. O artigo foi publicado como preprint na plataforma MedRxive submetido a revistas científicas internacionais.
 

No Rio de Janeiro, a temperatura pode atingir 43ºC na terça (18), um nível inédito de calor, segundo anunciou a prefeitura nesta domingo (16). Caso isso ocorra, medidas como a suspensão de atividades físicas ao ar livre e mudanças nas escolas municipais podem ser determinadas.
 

No estudo da Fiocruz, os números foram analisados separadamente conforme a classificação de níveis de calor (NC) do Protocolo de Calor da Prefeitura do Rio, lançado no ano passado. Os NCs variam de 1 a 5 e indicam riscos e ações que devem ser tomadas em cada um deles.
 

O registro de nível de calor 4 é quando a temperatura é superior a 40°C por quatro horas ou mais. Já o nível 5 equivale a duas horas com índice de calor igual ou acima de 44°C. Nessa situação, o mesmo aumento da mortalidade foi observado e agravado conforme o número de horas aumenta, de acordo com o estudo.
 

Segundo o pesquisador João Henrique de Araujo Morais, autor principal do trabalho e doutorando na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fiocruz, o estudo confirma o que outros trabalhos já demonstraram: níveis extremos de calor são um risco real, especialmente para idosos e pessoas com doenças como as mencionadas acima.
 

Porém, um dos diferenciais da pesquisa foi ter desenvolvido uma nova forma de medir a exposição ao calor e os riscos relacionados, com a criação de uma métrica chamada "Área de Exposição ao Calor" (AEC).
 

Essa medida considera também o tempo que uma pessoa fica exposta ao calor, o que outras métricas, como temperatura média ou sensação térmica média, não levam em conta. Esse tempo de exposição ao calor intenso tem uma ligação importante com a mortalidade, especialmente entre as pessoas mais vulneráveis.
 

O estudo ilustra a métrica usando como exemplo a onda de calor de novembro de 2023. Em 17 de novembro, dia em que a jovem Ana Clara Benevides, 23, morreu após passar mal no estádio Nilton Santos, onde a cantora Taylor Swift se apresentou, o índice de calor no Rio ficou acima de 44°C por oito horas, gerando um recorde de AEC. A sensação térmica no estádio Nilton Santos, porém, era de 60ºC.
 

De acordo com trabalho, no dia seguinte, 18 de novembro, foi registrado o maior número de mortes de idosos por causas específicas: 151 no total.
 

Segundo o pesquisador, a ferramenta que se mostrou mais eficiente do que outras métricas para identificar dias de calor extremo e, assim, auxiliar na prevenção das possíveis consequências.
 

O estudo comparou outras duas datas para mostrar como a AEC funciona. Em 12 de janeiro de 2020, o índice de calor foi de 32,69°C, enquanto em 7 de outubro de 2023 foi de 32,51°C. No segundo dia, porém, o calor durou mais tempo, resultando em uma AEC 20 vezes superior a do primeiro dia.
 

"Ao considerar apenas medidas-resumo (médias ou máximas) podemos subestimar dias anormalmente quentes. A métrica, por sua vez, consegue identificar isso e pode ser utilizada para definição de protocolos similares ao desenvolvido aqui no Rio", disse Morais em entrevista ao portal da Fiocruz.
 

Para o pesquisador, com o aumento de frequência e intensidade das ondas de calor não só para o município do Rio, mas para diversas áreas urbanas do Brasil, medidas individuais são importantes, mas é necessário ter políticas públicas que adequem as atividades e protejam a população.
 

"Sabe-se que populações específicas estão em alto risco —como trabalhadores diretamente expostos ao sol, populações de rua, grupos mais vulneráveis (crianças, idosos, pessoas com doenças crônicas), e populações que vivem nas chamadas ilhas de calor urbano."
 

No protocolo de calor do município do Rio, estão previstas medidas como disponibilização de pontos de hidratação e resfriamento, adaptação de atividades de trabalho, comunicação constante com a população e suspensão de atividades de risco em níveis mais críticos.