Foto: Johanna Nublat/Divulgação Transparência Internacional
Maíra Martini, nova CEO da ONG Transparência Internacional17 de fevereiro de 2025 | 07:01Brasileira assume Transparência Internacional e vê debate simplista sobre corrupção
A nova líder da ONG Transparência Internacional vê de maneira crítica o que chama de “visão simplista” das discussões sobre corrupção.
Maíra Martini, 41, paulista de Mogi-Guaçu, assumiu neste mês o posto de CEO da entidade, principal cargo administrativo da ONG atuante em mais de cem países com ações de enfrentamento à corrupção.
“Temos que tentar mudar um pouco essa narrativa e mostrar a necessidade de medidas preventivas. A gente não quer falar da corrupção uma vez que já aconteceu”, disse ela em entrevista à Folha.
Martini tem vasta experiência na organização, tendo atuado anteriormente na ONG, com sede em Berlim, em áreas como enfrentamento à lavagem de dinheiro e ao fluxo financeiro ilícito.
Logo nos primeiros tempos no posto, vem tendo que lidar com decisão do governo Donald Trump de cortar recursos da Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), o que também afeta o financiamento de braços da entidade pelo mundo.
Na última semana, a Transparência Internacional divulgou seu ranking anual de percepção da corrupção pelo mundo. O Brasil apareceu apenas na 107ª posição, entre 180 países, em sua pontuação mais baixa na série histórica.
O governo Lula (PT) é crítico da metodologia desse levantamento. O ministro da CGU (Controladoria-Geral da União) Vinicius Marques de Carvalho chamou em entrevista a pesquisa de “conversa de boteco”.
Ações contra corrupção
Maíra Martini afirma que a “discussão punitivista da corrupção, que é aumentar a pena” não deve ser o foco do debate sobre o tema.
A prioridade, afirma, deveria ser mais “a prevenção, a detecção”.
“O combate à corrupção precisa de várias coisas acontecendo ao mesmo tempo. Você precisa de instituições fortes, de um arcabouço legal que não deixe brechas de entendimento. Precisa de um Judiciário competente e independente. E precisa de uma sociedade civil ativa, da imprensa ativa e com espaço para falar. Quando você não tem um desses elementos, não se fala em combate à corrupção.”
Martini também vê um uso da “narrativa anticorrupção” por governos populistas que, uma vez no poder, “enfraquecem instituições, o espaço de associação, o trabalho da imprensa”.
“É preciso entender quem está conversando com quem no governo, quem está tentando influenciar. Como os gastos públicos estão sendo decididos, o que é prioridade, o que não é, quem tem subsídio, quem não tem. Tudo isso tem que ser informação aberta para o público, para os cidadãos também conseguirem avaliar.”
Crime organizado
Martini afirma que em muitos países há um problema de “captura do Estado”, com o crime organizado “decidindo ou atuando dentro do aparelho estatal”.
“Os sistemas e as redes usados pelo crime organizado normalmente são as mesmas dos usados pelos corruptos, principalmente em esquemas transnacionais”, diz ela, citando brechas como a facilidade para abrir empresas anônimas e o uso de escritórios de advocacia e de bancos para a lavagem de dinheiro.
Ela também vê a falta de efetividade da Justiça como um risco à dissuasão do crime. “Quando o Judiciário não funciona, você perde isso. O apetite de risco das pessoas decidirem se vão se envolver ou não num caso de corrupção é outro.”
Iniciativas do governo brasileiro
Em novembro, a ONG promoveu um protesto durante o encontro do G20, no Rio de Janeiro, cobrando de líderes mundiais que o tema da integridade também fizesse parte dos debates, o que não aconteceu.
Para Martini, o governo brasileiro perde uma oportunidade de reforçar um papel de liderança ao não trazer o assunto para as discussões. Mas diz que a COP30, que será realizada em Belém neste ano, e a reunião dos Brics (grupo que inclui Rússia, Índia, China, África do Sul e outros associados) também são outras chances de haver um debate.
“Na conferência do clima, se o Brasil não colocar as questões de integridade e transparência na agenda, corre um certo risco de ir por água abaixo muitos dos objetivos. Foi exatamente o que a gente viu acontecer nas duas últimas COPs, que foram praticamente capturadas pela indústria petrolífera e por outros atores poluentes.”
Lava Jato
A CEO da Transparência Internacional critica a anulação de provas da delação da empreiteira Odebrecht, determinada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) e que afetou em uma série de casos da Operação Lava Jato que ainda estavam sob tramitação no país.
Segundo diz, “obviamente, os corruptos dos outros países já estão fazendo uso dessa decisão”.
“Internacionalmente todo mundo está tentando entender um pouquinho o que vai acontecer e se isso vai significar impunidade para esses políticos em vários desses países”, diz ela.
A empreiteira havia firmado em 2016 um acordo de colaboração com autoridades do Brasil, Suíça e Estados Unidos no qual confessava pagamento de propina em 12 países. Em 2023, porém, o ministro do Supremo Dias Toffoli decidiu invalidar o uso de provas sob argumento de que houve conluio entre juiz e acusação e também transporte irregular do material.
A delação havia resultado em processos judiciais em países como Peru e Equador, e agora acusados tentam fazer uso da decisão do STF para derrubar as ações também fora do Brasil.
“O mais absurdo de tudo isso é que em algum desses casos essas pessoas confessaram que elas estavam envolvidas em esquema de corrupção. E agora pode ser que elas acabem totalmente impunes”, afirma a executiva.
Atrito com o STF
No Brasil, a ONG virou alvo em 2024 do ministro Dias Toffoli, que determinou uma investigação sobre a participação da entidade em acordo de leniência do grupo J&F. A entidade sempre negou ter recebido direta ou indiretamente qualquer recurso de acordos e que não teria papel de gestão de recursos.
Martini diz que o episódio “só pode ser retaliação pelo trabalho que a Transparência Internacional tem feito no Brasil”.
“É bem problemático quando se tem uma decisão, monocrática, da corte mais alta do país, que é baseada em informação falsa e que já foi negada várias vezes.”
A Procuradoria-Geral da República já se manifestou pelo arquivamento da apuração.
Maíra Martini, 41
Formada em direito e relações internacionais pela PUC-SP, tem mestrado em políticas públicas pela Hertie School of Governance, na Alemanha. Atua desde 2011 na Transparência Internacional e, a partir deste mês, se tornou a nova CEO (chief executive officer).